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A Insustentável Leveza do Ser – uma análise do livro e seus personagens

Bellini Bellini
maio 31, 2017
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Hoje o assunto é Milan Kundera e seu livro A Insustentável Leveza do Ser. Uma resenha literária conforme as que fiz anteriormente com o Pequeno Príncipe e Robison Crusoé.

Para quem não conhece, vamos começar falando do autor, dando uma breve biografia, e em seguida vamos seguindo para o texto em si, debatendo os principais detalhes, enredo e personagens do livro A Insustentável Leveza do Ser. =)

Por favor comentem, critiquem e assinem o demonstre.com. O feedback de vocês é tudo de bom e o melhor pagamento que posso receber! <3

Milan Kundera – afinal, quem é o autor de A insustentável leveza do ser?

Milan Kundera (Checoslováquia 1929-) foi um dos muitos artistas que emigrou dos países da antiga União Soviética em decorrência da perseguição por suas ideias consideradas “subversivas” pelos governos de seus países e seus onipresentes órgãos de inteligência.

milan kundera o autor de a insustentavel leveza do ser

Kundera nasceu na antiga Checoslováquia, hoje República Checa. Foi comunista na juventude e participou ativamente do processo que ficou conhecido como Primavera de Praga, em 1968. Depois da invasão soviética, Kundera passou a ser perseguido como “intelectual dissidente” e foi viver na França, onde permanece até hoje publicando muitos livros, felizmente!

As principais obras de Kundera

Milan Kundera começou escrevendo poemas, mas já no seu primeiro romance ficou conhecido pelo caráter político e crítico em seus textos. Foi justamente isso que o levou a ser perseguido e é justamente isso que o faz tão especial. Antes da resenha, aproveitando essa introdução que estou fazendo do autor, aproveito para mostrar os principais livros:

1º A Imensurável leveza do ser

Melhor obra, indiscutivelmente e por isso ocupa seu lugar aqui. Vou convencer vocês disso até o final do artigo. <3

a insustentável leveza do ser - milan kundera

2º O livro do riso e do esquecimento

Um dos livros mais viajados que já li, e é justamente isso que faz ele tão bacana. Com muito da influência poética do autor e trata de de um livro erótico que mistura sonhos e realidade. Vale a pena conferir:

O-Livro-do-Riso-e-do-Esquecimento-milan-kundera

3º A brincadeira

Esse é o primeiro romance do Kundera, livro que narra a história de um rapaz que ao criticar o governo comunista com uma brincadeira é castigado com anos de trabalho forçado, e passa anos tramando vingança e refletindo os radicalismos do sistema. Uma reflexão e tanto para defensores de regimes totalitarios, seja ele qual for, e com uma temática que dialoga bem com a “Insustentável leveza do ser” e “A imortalidade”, romances que levam a fama doa autor.

a-brincadeira milan kundera

4º A imortalidade

A imortalidade aqui é pensada como um gesto, e para Kundera os gestos são imortais. Neste romance o autor inicia o romance como um traço do perfil de Agnes, a personagem feminina marcante desta história, que se passa em Paris, no século 20, mas remete o leitor ao passado e ao firmamento, através de Goethe, Beethoven, Hemingway e Napoleão.

A imortalidade de milan kundera

5º A festa da insignificancia

Esse eu ainda não li, mas baseado na insistência no grupo do zap ele ganhou o 5º lugar. Para mais informações, vale dar uma lida na resenha da Mônica Montone, lá no Obvius.

A Sinopse dele é bem longa e diz o seguinte:

Lembrando A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino acolhido com entusiasmo pelo público brasileiro no mesmo ano, o novo romance de Milan Kundera coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido. Eles passeiam pelos jardins de Luxemburgo, se encontram numa festa sinistra, constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stálin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, ao invés dos seios ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo.

Na forma de uma fuga com variações sobre um mesmo tema, Kundera transita com naturalidade entre a Paris de hoje em dia e a União Soviética de ontem, propondo um paralelo entre essas duas épocas. Assim o romance tematiza o pior da civilização e lança luz sobre os problemas mais sérios com muito bom humor e ironia, abraçando a insignificância da existência humana.

Mas será insignificante, a insignificância? Assim Kundera responde a essa questão: “A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la”.

A festa da insignificancia de milan kundera

6º A indentidade

Esse livro é uma desconstrução do indivíduo adulto. Dois personagens ridicularizam identidades e isso faz com que um sonho se torne um pesadelo. Pouco a pouco Milan Kundera levará Chantal e Jean-Marc para a fronteira invisível que separa o real e o sonho, construindo um pesadelo em que o mais assustador será perder a identidade do outro.

a identidade de milan kundera

7º Um encontro

O livro de críticas do Kundera. Vale a pena para conhecer um outro lado do autor. Achei interessante, pois muito de seu texto lembra suas narrativas, além de ser uma crítica social bem poderosa.

um encontro de milan kundera

8º A valsa dos adeus

Um livro de ambiguidades, que me fez lembrar Fitzgerald. A sinopse diz o seguinte:

Numas termas, sete pessoas em busca da felicidade envolvem-se e afastam-se ao ritmo de uma «valsa» orquestrada por Milan Kundera com o seu habitual humor. Ruzena, uma bela enfermeira, Klima, um músico de jazz, Jakub, antigo militante e vítima das depurações, o doutor Skreta, diretor dos serviços de ginecologia das termas e Bertlef, o americano, são algumas das personagens que durante cinco dias se debatem nesta “Valsa do Adeus”, construída com o rigor de um romance clássico e fruto de uma rara capacidade de síntese e do forte poder inventivo, que caracterizam as obras do autor. «Se queremos compreender o mundo temos que abarcá-lo em toda a sua complexidade, na sua essencial ambiguidade» Milan Kundera, sobre “A Valsa do Adeus”

a valsa do adeus de milan kundera

9º A vida está em outro lugar

Como em o Retrato de um artista enquanto jovem, esse livro retrata a vida de um jovem poeta, sendo que no caso o espaço de conflito dele é a Checoslováquia no recém pós-guerra. Vale a pena conferir.

A sinopse diz o seguinte: Jaromil cresce na Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas. Para o júbilo de sua mãe, manifesta já na infância o dom de criar rimas. O menino pouco conhecerá o pai, que é preso pela Gestapo e morre num campo de concentração. Assim, é a mãe quem vai cuidar para que seja um grande poeta. O jovem, porém, se entusiasma com a revolução e põe sua arte a serviço da sociedade socialista. Para o desespero da mãe, ele não faz mais versos rimados. Agora redige palavras de ordem. O poeta quer ser livre e pertencer a algo maior, e ele não está sozinho. A seu lado estão Rimbaud, Lermontov, a poesia da afirmação, da embriaguez. Mas Jaromil nunca será verdadeiramente livre, pois o universo que o gestou não lhe permitirá emancipar-se de suas amarras.

A vida está em outro lugar

10º A lentidão

O menor romance de Kundera em tamanho, mas de uma narrativa bem mais alongada. Se não me engano, foi o primeiro a ser escrito em francês, e mostra uma maturidade diferente do autor. Nele Kundera propõe, em A lentidão, uma discussão a um tempo profunda e prazerosa sobre a dificuldade de apreensão do real ante a velocidade da vida moderna, a memória e o esquecimento, o clima frenético de hoje e uma época em se podia retardar o movimento em favor da fruição.

A lentidão milan kundera

Minha resenha de a A insustentável leveza do ser

Enfim vamos para a resenha. Primeiro vou fazer um preâmbulo, discutindo o texto, e depois falarei sobre alguns símbolos e personagens que todos devemos conhecer. espero que gostem:

É difícil definir “A Insustentável Leveza do Ser”, publicado em 1984. Poderíamos chama-lo de romance filosófico (embora Kundera rejeite esse título), romance histórico ou romance político. Romance histórico por que se refere a fatos históricos reais e descreve uma conjuntura. Político porque expõe um posicionamento frente ao socialismo no Leste Europeu. E filosófico, sobretudo, pela profunda reflexão sobre a existência, a liberdade, o amor, a individualidade enfim, sobre a questão que lhe dá nome.

Na primeira parte do livro “o peso e a leveza”, Kundera cita o princípio do eterno retorno:

“O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há de repetir outra vez e que essa repetição se há de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito”!

Partindo dessa referência, o autor reflete sobre os conceitos de peso e leveza quando fala:

“Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela”?

Esse questionamento não é respondido, somente compartilhado com o leitor. Depois de dita reflexão, Kundera explica como esboçou Tomás, um dos protagonistas. Daí em diante tem início a história dos quatro personagens, não existindo uma sequência cronológica linear ao longo da narrativa. A trama se desenrola da década de 60 até a década de 80.

Peso versus leveza é a dicotomia chave do livro, um paradoxo que não pode ser resolvido. Nenhum dos quatro personagens encontra uma solução para a questão.

“Se a maldição e o privilégio são uma e a mesma coisa, se não há diferenças entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por causa da merda, a existência humana perde as suas dimensões e torna-se de uma leveza insustentável”.

“Não há nada mais pesado do que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor consentida com outro, por outro, no lugar de outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos”.

Como a política aparece em A insustentável leveza dos ser?

A política na trama aparece apenas como um pano de fundo. Tomás, Sabina e Tereza são levados pelas circunstâncias a adotar uma postura apolítica, refletindo ao longo da obra as ideias de Kundera sobre o tema. A invasão soviética a Praga é retratada como um evento impregnado de horror, uma bela cidade violada pelos tanques e soldados estrangeiros, e o posterior regime condenando seus mais brilhantes homens e mulheres ao exílio ou ao silêncio permanente.


PRAGA, AGOSTO DE 1968. FOTOS DE JOSEF KOUDELA

E como a sexualidade aparece neste livro de Kundera?

A sexualidade é apresentada em termos de peso e leveza. Os personagens leves (Sabina e Tomás) são profundamente eróticos e veem a própria sexualidade com algo positivo e criativo, além de não sentirem nenhuma culpa por seus comportamentos promíscuos. Já os personagens pesados (Teresa e Franz) são marcados pela culpa sexual. Teresa odeia corpos, sobretudo o seu próprio corpo. Franz vive um terrível conflito por desejar trocar sua esposa por Sabina.

Sendo assim, o corpo representa um paradoxo em si, já que não pode ser classificado exatamente como leve ou pesado.

Conheça a SIMBOLOGIA em A insustentável leveza do ser!

Uma das coisas que mais gosto, e faz tempo que não faço, já que literatura não tem sido um dos meus focos hoje em dia, é justamente a análise dos significados por trás do texto. Em a insustentável leveza do ser, dois me chamaram bastante atenção:

O chapéu de Sabina

O chapéu, que pertenceu ao avô da personagem e foi transformada em objeto erótico, e representa sua rebelião e erotismo. Veja no trecho:

“Depois, quando Sabina começou vagarosamente a despir-se, lhe pôs o chapéu de coco na cabeça. Encontravam-se de pé à frente do espelho. Era sempre aí que se despiam e espiavam as suas imagens”.

A mala de Teresa

A mala dentro da qual a personagem colocou todos os seus pertences antes ir viver em Praga representa sua própria vida e filosofia. É como se ela escolhece os pertences que formam o seu caráter, e isso a validasse com ser consciênte.

Quem são os principais personagens que integram o livro A insustentável leveza do ser??

Quem é Tereza?

Tereza é a personagem principal e esposa de Tomás, também protagonista. Trata-se de uma mulher de temperamento melancólico que inspira em Tomás um amor terno e generoso. Infelizmente ela sofre muito com a infidelidade do marido, que lhe causa pesadelos, embora não manifeste abertamente seu ciúme. Era fotógrafa na época na da invasão soviética e passou a ser perseguida por sua atuação durante o evento.

Quem é Tomás?

Tomás tambem é personagem principal. Médico cirurgião renomado que é obrigado a abandonar a profissão em função da perseguição política que passa sofrer. Tem um caráter forte, promíscuo, compassivo e observador. Quando tem relações sexuais com diferentes mulheres, procura encontrar a qualidade que as distingue das demais, e, na obsessão por essa busca é infiel a Teresa, mas não porque não a ame.

Quem é Sabina?

Sanina é a amante de Tomás e de Franz. Pintora. Busca e persegue incansavelmente a liberdade, e no momento em que se sente pressionada, atada a ou intimidada por alguém, abandona aquele que lhe impõe esse peso e ruma à leveza do ser.

Quem é Franz?

Franz é um cientista suíço que se apaixona por Sabina, a quem idealiza até o fim da vida. É idealista e romântico.

Algumas ideias para trabalhar “A insustentável leveza do ser” com seus alunos em sala de aula:

O livro pode ser explorado no Ensino Médio, nas disciplinas: História, Língua Portuguesa, Literatura e Filosofia. No Ensino Superior, penso que é uma leitura necessária nos cursos de graduação em Letras, Ciências Sociais, Filosofia e História, muito pela possibilidade do aluno se sentir parte oprimida em um sistema totalitário.

  1. A primeira parte do livro apresenta uma temática mais abstrata, o que pode ser muito frutífero em gerar o debate, devendo ser lida preferencialmente em sala de aula.
  2. O livro pode fazer parte das discussões sobre os sistemas totalitários no Leste Europeu, sobre o fracasso do chamado “socialismo real’ e sobre o ambiente ideológico internacional durante a Guerra Fria.
  3. Tanto o livro em si quanto o impacto por ele causado na época de sua publicação merecem atenção e podem fomentar o debate. Uma pesquisa rápida ou um artigo informativo pode ser uma boa pedida.
  4. É possível fazer uma análise comparativa entre o livro e outras obras que também se inserem na temática da crítica aos regimes comunistas no Leste Europeu, podendo abordar tanto os próprios textos do Milan Kundera, quanto de outros autores. Como ler mais que um romance por semestre é algo desgastante, trazer resenhas críticas de outros livros ou artigos de opinião podem servir.
  5. Do ponto de vista da Língua Portuguesa e da Literatura, o romance abre possibilidades de se trabalhar a especificidade de sua narrativa e seu caráter inovador dentro do gênero.
  6. As diversas questões existenciais desenvolvidas ao longo da trama fornecem todo um leque de temas para as aulas de Filosofia.
  7. O livro tem uma versão cinematográfica que pode complementar a leitura.

JULIETE BINOCHE E DANIEL DAY-LEWIS VIVERAM TERESA E TOMÁS NO CINEMA.

Outros materiais legais na WEB:

A Insustentável Leveza do Ser (1987) – Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=DI0W41NMVKQ

Site de Milan Kundera (em inglês):

http://www.kundera.de/english/Biography/biography.html

 

 

 

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Comentário

  1. Olá! Sem dúvida, as obras de Milan Kundera tem alguns apelos muito interessante. Acredito que toda a experiência no processo de imigração, bem como toda uma história una União Soviética na flor dos tempos, contribuíram para a formação do perfil com uma maravilhosa pluralidade de conceitos e concepções que incutem sua vivência com intelectualidades alternativas décadas atrás. Excelente análise das obras… Como sempre, ótimos textos, destacando espectros relevantes da literatura.

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