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Uma criança que lê será um adulto que pensa: qual o pressuposto?

Bellini Bellini
Apr 26, 2017
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Olá pessoal, como vocês estão? Hoje eu começo apresentando a famosa frase “uma criança que lê será um adulto que pensa“. Farei algumas indagações e explicações à respeito. Tal frase é plenamente difundida como uma grande verdade, mas, será que essa é uma afirmação cem por cento verdadeira?

Uma criança que lê será um adulto que pensa…

É o que muita gente costuma dizer e aposto que você já tenha lido ou ouvido tal frase de efeito. Supõe-se que quem quer que seja, à partir do momento em que desenvolve o hábito da leitura, será uma mente pensante (no sentido de realizar grandes reflexões e tudo mais). Ora, não podemos menosprezar jamais a leitura, seja qual for a fonte e isso é fato, mas, também não podemos ser inocentes ao ponto de corroborar com tal afirmação.

Acontece que esse pressuposto passa a impressão de que a simples leitura independente de critérios (como a qualidade) transformará alguém em um grande pensador, intelectual ou coisa do tipo. Isso não é verdade, uma vez que, se determinado sujeito constantemente lê apenas o caderno esportivo do seu jornal favorito, dificilmente este indivíduo irá se tornar um grande orador ou filósofo por conta da simples prática de ler as notícias futebolísticas.

O mercado editorial tem milhões de livros, revistas e jornais com vários gêneros e públicos. Muitas obras são feitas exclusivamente com o propósito de entreter. O exemplo fatídico disso são as Grafic Novels, as Histórias em Quadrinhos e livros de ficção. Ainda que alguns destes possuam conteúdos e mensagens muito bem elaboradas, isso não significa que alguém irá se tornar um grande intelectual por conta disso.

No quesito público-alvo, seria uma grande inocência comparar uma revista em quadrinhos com uma obra filosófica atual como Amor Líquido, do Filósofo Bauman. São obras completamente diferentes e com fins distintos.

Ainda que até mesmo uma HQ possa ter reflexões assertivas, ela não possui este fim, e portanto, não pode ser comparada com obras que tem como objetivo principal o de despertar a reflexão e o pensamento crítico.

Verdade seja dita…

A nossa crítica em si é contra a afirmação que pode soar preconceituosa, uma vez que ainda existe a tradição oral. Vale dizer que o analfabetismo e analfabetismo funcional ainda assola uma pequena parte da população mundial. É possível encontrar pessoas (talvez você já conheça algumas) que tenham grande conhecimento e façam reflexões sensatas, sendo que nunca terminaram os seus estudos. Algumas dessas pessoas mal sabem ler e escrever.

O conhecimento e a sabedoria não são necessariamente frutos da leitura. Existem pessoas analfabetas capazes de construir casas e obras elaboradas, tal como muitos pedreiros e carpinteiros. Pescadores com conhecimentos sobre o mar, os ventos, marés e os hábitos dos peixes. Agricultores que conhecem tudo sobre plantios, safras e pragas. Existem informações valiosas conhecidas por essas pessoas nas mais variadas áreas, sendo que, em alguns casos, não são encontradas em livros ou manuais. Portanto, fica evidente que conhecimento e sabedoria não são adquiridos única e exclusivamente através da leitura.

Durante muitos séculos, conhecimentos valiosos foram difundidos por meio da tradição oral, dos cânticos, poemas e dizeres que fluíram pela história, avô para neto, pai para filho, e assim por diante. Não é raro pessoas instruídas pedirem conselhos à amigos e familiares que não completaram os estudos, e, ainda assim, demonstram grande sabedoria.

Não podemos ser levianos e dizer que por causa disso não devemos incentivar nossas crianças quanto ao hábito da leitura. Não, longe disso! Temos mais é que aproximar os jovens dos livros. A questão discutida aqui é apenas com relação à falsa ideia de sabedoria contida nessa frase comumente usada como verdade absoluta.

Um mundo chamado livro

Sim, a leitura é essencial na vida das pessoas. Ela é a maior porta para o caminho do conhecimento, mesmo que não seja a única. Criatividade e curiosidade também são essenciais, pois, do contrário, o futuro adulto poderá ficar preso na leitura de entretenimento e jamais se preocupar com política, filosofia, questões da atualidade e reflexões pessoais. É nesse sentido que estamos trabalhando.

À respeito do tema, confira esse vídeo do Professor e Escritor Rubem Alves:

Como bem disse o professor Rubem, é preciso levar em conta que a criança deve buscar o livro, sentir-se familiarizada com ele. E para tal não podemos forçá-las a ler, pois, isso no máximo produz “leitores cegos”. O tipo de gente que passa os olhos, reconhece os códigos, os processa, mas, jamais os absorve o texto lido. Não é esse o tipo de leitor que devemos criar.

No Brasil e no mundo existe uma infinidade de obras publicadas, e, algumas delas podem quebrar paradigmas, incentivar o surgimento de novos pensadores, e até mesmo transformar vidas. Pensando nisso, já num tom positivo e não somente de crítica, selecionamos alguns títulos para que você possa ler e indicar. Calma, não vá indicar esses livros para os pequenos. As obras escolhidas são boas introduções ao mundo dos questionamentos e reflexões para os jovens adultos. A vez das crianças vai chegar, não se preocupe.

Alguns bons livros para a aguçar curiosidade e colocar a mente para trabalhar:

Guerra e Paz (Liev Tolstói)

Enquanto Agonizo (William Faulkner)

Amor Líquido (Zygmunt Bauman)

A Revolta de Atlas (Ayn Rand)

A Arte da Guerra (Sun Tzu)

A Modern Utopia (H.G. Wells)

Sagarana (Guimarães Rosa)

A Condição Humana (Hannah Arendt)

Demian (Hermann Hesse)

O Livro da Filosofia (vários autores)

E para terminar

Concluímos que a frase “uma criança que lê será um adulto que pensa” é preconceituosa por não levar em conta que o conhecimento não é transmitido apenas pela leitura. O pensar e o refletir muitas vezes advém de obras exatamente com esse intuito, e não somente isso. Existem professores e pessoas pelo mundo capazes de aguçar a curiosidade humana em tal ponto, que, naturalmente, você pode se tornar um filósofo da vida e do mundo.

Incentivemos nossas crianças a lerem, e a se divertirem com a leitura. Com o tempo devemos aguçar sua criatividade, sua vontade de conhecer e entender o mundo, seus mistérios, assim como o próprio ser humano.

Eu diria que: uma criança que lê não necessariamente será um adulto que pensa. Será alguém com uma prática saudável, que, se for incentivado a refletir e a se questionar sobre as coisas, adotará, além da leitura de entretenimento, a leitura das obras de grandes intelectuais, e deste modo, começará a perguntar-se sobre a vida, sobre a sociedade, e , inevitavelmente, fará suas próprias conclusões, tornando-se, por fim, um adulto que pensa.

Bem, por hoje é só pessoal. Amanhã teremos outro post, então não deixe de se inscrever.

Como sempre, gentilmente eu peço para que você compartilhe esse artigo nas suas redes sociais, com amigos, colegas e familiares. Conto contigo para passar a mensagem adiante. Um abraço e lembre-se:

Demonstre!

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3 Comentários

  1. “Ser leitor/a é sentir-se comprometido com seu estar no mundo e com a transformação de si, dos outros, das coisas; é acreditar que se apreende o mundo quando se compreende o que o faz ser como é “. (Foucambert,1994)
    Excelente reflexão! Pensar e questionar! Tudo se inicia por essa vontade!

    Reply
  2. Sensacional o texto. Já é o terceiro artigo que leio, e gosto ainda mais, temas relevantes e principalmente, pontuais. Em especial por que vivemos numa sociedade, principalmente a brasileiro, onde assistir 4 a 5 horas de televisão é um hábito dezena de vezes mais frequente do que ler. Isso explica bastante do desenvolvimento da nação.
    Uma prova é que em lugares como Glasgow na Escócia, as crianças de 4 anos voltam com livrinhos pra casa toda semana. E seus pais, costuma ler em conjunto, ao invés de assistir a novela das 9h. Lá o índice de criminalidade, abuso infantil, etc e etc, são bem menores que no Brasil.
    Um ponto no texto que eu mudaria é quando você diz que o analfabetismo e o analfabetismo funcional assolam ainda uma pequena parte da população, acredito que esse número atinge uma grande e considerável parcela da população mundial, em especial nas antigas “colônias. Além disso, eu colocaria uma consideração também “uma criança que lê não necessariamente será um adulto que pensa. Mas uma criança orientada a ler corretamente, e estimulada a ler frequentemente, tem tudo pra ser um adulto melhor”

    Reply
  3. Meu caro, o texto enseja uma reflexão pertinente (à moda do texto a respeito dos mitos que cercam a alfabetização, de Ângela Kleiman – embora não lembre em que livro está). Todavia, e você deve estar ciente disso, é o momento de substituirmos a expressão “hábito de leitura”, justamente para retirar a conotação quantitativa que p cerca em detrimento da dimensão qualitativa. Além disso, discordo de que HQ, Grafic novels etc. sejam exemplos fatídicos, uma vez que há uma seara inteira de autores cujas produções não deixam a desejar quanto a preceitos filosóficos. Ficcionalizar é um ato muito presente na história das ciências, principalmente quando se trata de apresentar ao público conceitos complexos.

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