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Dia Nacional do Cego: Como é a rotina de um estudante cego em escolas públicas?

Dia do Cego

Neste texto vamos falar amplamente sobre a realidade dos deficientes visuais e como enfrentamos a realidade escolar. Indo desde a história até a vivência desses jovens e permeando algumas leis. Desde já explicito que como a realidade do cego nas escolas é complicada, falaremos de muitos desafios que devem ser lembrados, dialogados e enfrentados não apenas no dia do cego, mas sempre, buscando também o otimismo para gerar mudanças.

CONHECER-ESCOLA

Como é a rotina de um estudante cego em escolas públicas?

O dia nacional do cego foi instituído pelo ex-presidente da república Jânio da Silva Quadros, no decreto nº51.405/6 em 26 de julho de 1961. Tal data foi criada com o intuito de alertar sobre a necessidade de promover a igualdade e solidariedade para não somente os cegos, mas também a todos os deficientes visuais. Tal data corresponde ao dia 13 de dezembro.

A vida de um estudante cego ou com deficiência visual no Brasil não é nada fácil. Isso se deve ao fato de que quando as cidades são planejadas, suas ruas, calçadas, trânsito e programas de inclusão normalmente desconsideram a rotina dos deficientes, e assim sendo, tampouco consideram os cegos e demais deficientes visuais. Não é raro perceber calçadas estreitas e com árvores que dificultam a locomoção do pedestre comum. Agora imagine esses desafios para um deficiente visual. Poder se deparar com um galho de árvore surpresa, não ter a possibilidade de possuir um cão guia e por isso depender de outra pessoa para se locomover, aliando ao fato do transito no país é muito agressivo e as calçadas, como se não bastasse, por toda a parte possuem buracos e declives irregulares.

É um exercício de empatia que o docente precisa fazer para saber como de fato é a vida de um deficiente visual. Agora, você educador ou pai de um cego, se coloque em seu lugar imagine-se deparando com a falta de estrutura pública. Quantas escolas no Brasil estão preparadas para ensinar o braile e possuem programas de inclusão do estudante com deficiência visual? E outra questão pertinente: a quantos quilômetros as escolas com esse preparo ficam de distância das residências desses estudantes?

Um pouco de história dos cegos e deficientes na sociedade…

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Durante a antiguidade o pensamento recorrente a qualquer tipo de anormalidade (deficiências em geral) era considerada uma degeneração, e aquele indivíduo deficiente deveria ser simplesmente mortos ou “sacrificados” como se dizia na época, pois acreditavam que eles causavam transtorno à sociedade por conta da dedicação e trabalho que era necessário para incluí-los e fornecer-lhes uma vida digna. Então, para a antiguidade no geral, a existência de um deficiente simplesmente precisava ser aniquilada ou segregada, e eles não recebiam quaisquer cuidados do estado. As pessoas simplesmente viviam na rua, dependiam de favores e sobreviviam o quanto podiam.

O cristianismo levou aos deficientes maior tolerância e pregou a aceitação dos mesmos. Mas, isso ainda não lhes garantia de fato a inclusão social. Os deficientes visuais ficavam, normalmente, presos à suas casas e poucos deles interagiam socialmente. Dificilmente um cego trabalharia ou construiria uma família tal qual uma pessoa comum poderia fazer. O preconceito ainda tomava conta dos cegos e demais deficientes, que eram vistos de forma mística, como se suas patologias fossem algum tipo de maldição.

A idade moderna melhorou esse paradigma por pregar a valorização do ser humano. A medicina começou a dar seus primeiros passos no que então chamavam de “excepcionalidade”, ligada aos deficientes em geral. Então chegamos ao século XX em que as políticas começaram a ter um viés terapêutico e de tratamento das pessoas com necessidades especiais, ao invés de simplesmente segrega-las ou tolerá-las, o que apesar de um avanço se comparado com a idade antiga. A Dinamarca foi pioneira para a mudança no modo como os deficientes eram tratados, chegando a um conceito de normalização, que buscava levar a todas as pessoas condições de vida humanamente e socialmente normais e dignas, esforçando-se verdadeiramente para atingir esse objetivo. A Dinamarca foi o primeiro estado a fazer isso!

Apesar de já haver algumas instituições para deficientes, como por exemplo, o Instituto de Meninos Cegos do RJ, fundada em 1854, o conceito de normalização dos dinamarqueses só chegou ao nosso país na década de 1970, onde ainda predominava a ideia de segregação dos deficientes. Apesar de nossa grande diversidade cultural, o Brasil é historicamente um país com muitos preconceitos. Um grande passo foi dado na luta não somente dos cegos, como também de todos os deficientes quando A Lei de Diretrizes e Bases (especificamente a 5.692/72) garantiu o direito à educação aos chamados “excepcionais”.

O tom do discurso era o de democratização da educação, mas ainda não resolveu o problema do preconceito e da segregação social. Foi também criada uma divisão especial no MEC chamada de Centro de Educação Especial, em 1973. Os passos estavam sendo dados, mas você, meu caro educador, pode perceber claramente que o problema da segregação e de condição de igualdade ainda continuam pertinentes.

Felizmente a constituição de 1988 preconiza a educação como um direito de todos independente de qualquer deficiência. O acesso à escola é um direito de todos. Houve novas diretrizes e mudanças que vieram com o intuito de beneficiar os deficientes, e cabe ressaltar uma parte da própria constituição muito importante, que fala diretamente a nós que o atendimento especializado tem de estar disponível em qualquer um dos níveis de ensino.

A realidade dos cegos nas escolas

DEZEMBRO-13 dia do cego

A tendência percebida nos últimos anos é o aumento do número de alunos com deficiência nas salas de ensino regular. Apesar desse fato, pasme caro educador; ainda há escolas que se negam a receber os estudantes deficientes utilizando-se do argumento de que não possuem profissionais treinados para atender suas necessidades ou que há a inexistência de uma estrutura para tal! Só para constar… Perante a lei (Lei 7.853/89) isso é crime!

Apesar de termos dado um importante passo no que tange a democratização da educação via legislativa, dadas às exceções das escolas com conduta criminosa que não recebem alunos deficientes, ainda existe outro paradigma na vida do estudante cego. Frequentar a escola é uma coisa, aprender, de fato, é outra. Será que nossos estudantes com deficiência visual realmente estão aprendendo o conteúdo disciplinar em sala de aula, ou, apenas estão cumprindo a carga horária obrigatória? Você professor, o que pensa a respeito disso?

Ao se falar sobre estrutura, atualmente existem dois modelos propostos para atender os alunos deficientes. Primeiramente o modelo multifuncional, que são salas feitas para atender diversos tipos de alunos deficientes numa mesma sala. Já o segundo modelo atende por deficiência, no caso possui salas apenas para cegos, outras apenas para surdos e assim em diante. Existe certa discussão acerca de qual desses modelos é o ideal para tornar-se padrão, mas, na opinião de muitos especialistas, tal como Daniela Alonso, uma psicopedagoga, é importante ter essa diversidade de modelos, já que ainda não há consenso sobre qual de fato é melhor.

O grande desafio para o aluno cego ao chegar à escola, além da questão da sala de aula e material específico, como livros em braile, entre outros, é a formação do professor que será seu educador. Como você docente está preparado para ensinar o deficiente visual? Um exemplo trivial: contar, para nós, pode ser algo extremamente fácil. Com um simples olhar identificamos os números e quantidades de objetos. Para um cego não é tão fácil assim, principalmente quando se fala em multiplicação, divisão, frações e equações… Consegue se imaginar resolvendo uma equação sem nunca ter enxergado um número?

Um professor de matemática precisa ter material apropriado para que o cego aprenda os números e os conceitos básicos da matemática. Além disso, esse professor tem de ser capaz de ensinar ao aluno cego da melhor maneira possível, caso contrário, o aluno será incapaz de realizar todos os tipos de cálculos matemáticos e durante o ensino médio, por exemplo, não conseguirá acompanhar o conteúdo disciplinar em uma sala de aula de ensino regular.

E mais, essa adequação também é necessária no processo de avaliação de desempenho do aluno. Assim como ele aprende de maneira diferenciada, precisa ser avaliado da mesma forma. Existem estudos à respeito buscando a melhor forma de aplicação de testes e avaliações para alunos cegos.

A sala de recurso e sala multifuncional

dia do cego 7

É um forte instrumento de inclusão para o aluno deficiente. São elas compostas de um conjunto de recursos, tais quais equipamentos de informática, móveis e materiais pedagógicos especificamente voltados para atender as necessidades especiais dos alunos. Ter a possibilidade de aprender o braile e conhecimentos que possibilitem o acompanhamento da disciplina nas salas de aula regulares juntamente com seus colegas faz a diferença. Nesse ponto, quando bem utilizadas, as salas de recurso propiciam ao deficiente visual forte base para que ele continue a se desenvolver dentro e fora da sala de aula, podendo de fato não somente aprender os conteúdos disciplinares como também aplicar os conhecimentos obtidos.

Ao longo do tempo as prefeituras e os estados têm aumentado o número das salas de recurso, mas ainda não é o suficiente para atender com excelência toda a demanda da população. Ações afirmativas nesse sentido precisam continuar sendo realizadas, e os educadores precisam dessas mínimas condições de trabalho, além de formação básica que seja capaz de torna-lo apto a trabalhar com os deficientes.

Além da estrutura e do preparo didático, o professor precisará estar atento para o fato de que o aluno precisa estar inserido socialmente na turma, e principalmente, que ele precisa ser respeitado. Infelizmente não é incomum a prática de bullying hoje em dia. Nesse sentido, o deficiente visual também precisa de amparo psicológico, pois sua limitação visual pode acarretar em baixa da autoestima. Por conta disso é importante que o professor a esses fatores e em caso de necessidade procure encaminhar ou mesmo orientar os pais a leva-lo a um psicólogo ou psicopedagogo.

Sabemos que a estrutura pública muitas vezes é falha nesse sentido, mas é preciso fazer o que for possível, e continuar buscando a viabilização do ensino de qualidade para todos os alunos.

Acreditar é possível, e Lívia Motta tem um ótimo poema sobre a realidade do cego:

Escola acessível é possível

O sinal toca, é hora de entrar…

A aula já vai começar.

Vozes de menino e menina,

De gente animada e exaltada

Que está ali e acolá.

Um cheirinho de café paira no ar.

Já me contaram que a escola tem menina de trança

E aluno que gosta de dança.

Tem banco no pátio e árvore prá todo lado.

Vou aprender a chegar até a biblioteca,

Laboratório, quadra e cantina.

Será que vai ter filme com a tal da audiodescrição?

Quem conhece não fica mais sem.

A escola pode muito mais acessível ficar

Se meus colegas e professores puderem me contar

O que seus olhos veem

E os meus não podem enxergar.

Vou poder com eles de tudo participar,

Não vai faltar assunto e notícia para contar.

E não há como não se empolgar

Com o aprender e ensinar.

Muitas janelas abertas e vontade de espiar.

Conhecer e o mundo conquistar.

Escola acessível é possível,

É só começar.

Você docente, professor, educador, pode preparar-se para trabalhar para a inclusão dos deficientes visuais e demais alunos, o chamado AEE – Atendimento Educacional Especializado. O MEC costuma oferecer cursos à distância, com carga horária variável na especialização de professores. Também existem outros cursos de especialização presenciais que estão presentes nas grandes cidades e universidades.

A reflexão que o dia nacional do cego propõe pode te fazer pensar em como não é nada fácil a vida de um deficiente visual aqui no Brasil. E isso começa desde o momento em que ele acorda, como se locomove, passa por seu círculo social, seus relacionamentos, se alastra para a educação e o trabalho. O exercício da empatia pode te inspirar a tornar-se a diferença para os deficientes visuais. Pense nisso. É uma causa nobre.

Bellini Bellini
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Felipo Bellini
Professor de inglês e tradutor. Leciono na educação básica como concursado pelo governo do estado do Rio Grande do Norte atuando no: Ensino Fundamental II, Ensino Médio regular e na Educação de Jovens e Adultos - EJA; gerencio a empresa Traduza, onde me responsabilizo tanto pela tradução de livros e artigos científicos, como orientação da equipe; e sou mestrando do programa de pós graduação em linguagem da UFRN. Na infância apresentei problemas de aprendizagem, o que me permitiu ter contato com diversas experiências para evoluir meu nível escolar, e no decorrer desse processo refletir a prática e interação como objetos necessários para a aquisição de conteúdo. Todo esse contato com as metodologias de aprendizagem e acompanhamento da minha família fez com que muito cedo assumisse minha primeira sala de aula, sendo monitor e depois professor em um curso pré-vestibular da cidade. O interesse na docência era claro, e com 17 anos entrei em Letras na UFRN. Participei desde o primeiro semestre de projetos de pesquisa e extensão; sendo os mais relacionados ao ensino o PIBID, o ÁGORA, o PROCEM e o Curso de Português para Estrangeiros com Cinema. Minha intenção era diversificar e experimentar o que estivesse ao meu alcance, afim de gerar o máximo de experiências na universidade. Por indicação consegui uma estadia para o País de Gales, no Reino Unido, onde fiquei durante 6 meses dando aula de português para estrangeiros na universidade de Cardiff, e recebi uma bolsa da CELTIC para cursar o nível C1 e um curso de literatura básico. No período fiz também o curso técnico de tradução acadêmica pela Cardiff Library (4 meses) e o de Counselor - Educational Issues (2 meses), o último me dando vivência dentro das escolas públicas do país. Após minha formação, em 2013, empreendi na área da educação, montando duas empresas. A primeira uma rede social para professores e alunos chamada TUTORA.ME, onde conseguimos a adesão de mais de 6 mil membros cadastrados, sendo mais de 25% deles ativos diariamente até o fim da plataforma no final de 2015. A segunda um cursinho popular chamado Garra-RN, onde o maior foco era o aprendizado dos alunos através da colaboração e aulas desafio. Esse método nos trouxe ótimos resultados na unidade de Goianinha, com mais de 70% dos alunos aprovados nos concursos públicos de interesse no fim de 2015 e início de 2016. Hoje posso dizer que minha maior motivação são as aulas que leciono no ensino público, onde sou concursado desde 2014. Adoro sair das aulas e ouvir dos alunos que eles tiveram a melhor aula até o momento. Minha busca está na transformação do espaço social e em como conseguir engajamento e metrificar a performance dos meus alunos através de suas atitudes pró-aprendizagem. Neste processo de formação docente que continuo passando encontrei no desenvolver da leitura e escrita com o alunado a resposta para precipícios sociais que nas dinâmicas e brincadeiras costumeiras das aulas de inglês não evidenciava. Passei a inserir dentro das aulas de inglês diversas atividades para resolver os problemas escolares e da comunidade, sempre na perspectiva do aluno. Foram desde cartas de protestos até fanpages para campanhas sociais. Pesquisas comunitárias, projetos de empreendedorismo e até um projeto de escola bilíngue que nas discussões me motivaram a seguir adiante e procurar o curso de Especialização do Ensino da Escrita, onde pretendo me aprimorar e retornar o máximo que puder para os meus alunos.

Comments

4 Comments
  1. posted by
    Renan
    dez 14, 2015 Reply

    Os educadores poderiam propor aos alunos e a eles mesmos uma dinâmica em que usassem vendas e tentariam se virar sem conseguir enxergar. Para sentir um pouquinho as dificuldades de um cego.

  2. posted by
    Pietro
    dez 15, 2015 Reply

    A inclusão de pessoas com deficiências nas escolas é um ganho para todos. Enquanto essas pessoas ficavam a margem da sociedade as pessoas não aprendiam a se relacionar com elas.

  3. posted by
    Maria Júlia
    jan 3, 2016 Reply

    O deficiente ou portador de necessidades especiais enfrenta muitos desafios no dia a dia. Além de ter que conviver com as dificuldades decorrentes da deficiência, precisa enfrentar o preconceito e pessoas que não sabem conviver com a deficiência alheia.

  4. posted by
    Fernando Blikstein
    jun 6, 2016 Reply

    Gostei bastante do texto. Acho, como educador, que é essencial que as escolas e as políticas públicas viabilizem as estruturas não apenas nas escolas, mas também nas ruas para que os deficientes visuais tenham melhores acessos à locomoção, nas ruas, e educação, nas escolas. Evoluímos bastante neste sentido em relação a tempos de outrora, mas ainda falta evoluir muito, principalmente no que tange a locomoção do deficiente visuais em ruas e calçadas. A escola, como um lugar onde deve se ter harmonia para o aprendizado, deve ter todas as estruturas físicas, pedagógicas e metodológicas para que os alunos consigam acompanhar seus colegas.

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