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Robinson Crusoé – uma análise do livro e seus personagens

Bellini Bellini
jun 14, 2016
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Olá, tudo bem com vocês? Estou aqui para mais uma resenha literária / estudo literário. Desta vez trago Robinson Crusoé, mais um dos meus livros prediletos e que sem dúvidas este marcou tanto minha infância, quanto minha formação em letras inglês. Vou tentar fazer uma explanação simples sobre o autor para em seguida resumir a obra e caracterizar os principais personagens, temas e símbolos, deixando pro final a discussão pedagógica e dicas de livros.

Por favor comentem, critiquem e assinem o demonstre.com. O feedback de vocês é tudo de bom e o melhor pagamento que posso receber! <3

Antes de tudo vamos falar um pouco sobre Daniel Defoe e suas inspirações.

Daniel Defoe nasceu em 1660, em Londres, numa família presbiteriana de classe média. Os valores da religião foram por ele cultivados durante toda sua vida, embora tenha sofrido perseguições em função de sua fé já que participava da igreja anglicana, e por isso não teve direito a universidade, o que muito se reflete criticamente em sua obra.

Daniel Defoe retrato

Ao longo de sua vida, Defoe foi jornalista político e panfletista, espião e comerciante, além de ter passado pela prisão por motivos políticos. Produziu mais de 500 livros e panfletos durante sua trajetória. Estilisticamente, Defoe foi um grande inovador: dispensando o estilo ornamentado associado às classes mais altas, usou um estilo simples, direto, baseado em fatos das classes médias, se tornando o novo padrão para o romance Inglês. Daniel Defoe morreu em 1731 revolucionando então a escola literária inglesa, em especial com duas grandes obras: Robinson Crusoé e Moll Flandres.

Nos aprofundando em Robinson Crusoé …

Robinson Crusoé foi inspirado na história verídica de um marinheiro náufrago chamado Alexander Selkirk e apresenta também um caráter autobiográfico. Com o tema da existência humana solitária de Robinson Crusoé, Defoe abriu caminho para o moderno tema central da alienação e isolamento.

Robinson Crusoé era um inglês da cidade de York, no século XVII, filho mais velho de um comerciante. O pai desejava que estudasse Direito, mas Robinson escolhe as viagens marítimas como caminho de vida. Em sua segunda viagem, após passar por maus momentos, Crusoé acabou por se estabelecer como um bem-sucedido fazendeiro no Brasil. De olho nos lucros do tráfico negreiro, ele embarca numa expedição para coleta de escravos na África Ocidental, mas o navio naufraga na costa de Trinidad e ele é o único sobrevivente ao desastre. O protagonista daí em diante precisa forjar suas condições materiais de existência e toma ciência da presença de nativos antropófagos na ilha. Um dia, Crusoé salva um nativo que seria devorado por uma tribo rival, a quem passa a chamar de Sexta-Feira, que lhe instrui sobre o modo de vida autóctone. Vinte e oito anos após sua chegada à ilha, Crusoé finalmente consegue retornar à Inglaterra e suas plantações deixadas no Brasil lhe garantem uma considerável fortuna.

ilha de robinson crusoe

O sucesso do protagonista em dominar sua situação, superando os obstáculos e controlando seu ambiente mostra a condição de mestria sob uma luz positiva, pelo menos no início do romance.  Crusoé está em um ambiente inóspito e o torna sua casa. Sua domesticação de cabras selvagens e papagaios ilustram seu controle sobre a natureza. Além disso, o domínio de Crusoé sobre a natureza faz dele um mestre de seu destino e de si mesmo. No início da história, ele frequentemente se culpa por desobedecer ao conselho de seu pai. Mas na parte posterior da novela, Crusoé deixa de ver a si mesmo como uma vítima passiva e atinge uma nova nota de autodeterminação. Durante o longe período em que permanece na ilha, ele descobre que é o mestre de sua vida, sofre um destino duro e ainda encontra prosperidade.

Mas este tema do domínio torna-se mais complexo e menos positivo depois da chegada de Sexta-feira, quando a ideia de domínio se refere às relações injustas entre os seres humanos. Crusoé está longe de considerar Sexta-Feira como igual a si, a ideia superioridade ocorre instintivamente. Questionamos ainda o direito de Crusoé a ser chamado de “mestre”, quando mais tarde ele se refere a si mesmo como “rei” sobre os nativos e europeus, que são seus “súditos”. Em resumo, enquanto Crusoé parece louvável em dominar o seu destino, o merecimento de seu domínio sobre seus companheiros seres humanos é absolutamente questionável. Defoe explora a ligação entre os dois em sua descrição da mente colonial.

mapa da vida de robinson cursoe

Sendo assim, Robinson Crusoé é não apenas uma história de aventura em que fatos emocionantes acontecem, mas também um conto moral ilustrando as formas erradas de viver a vida. Esta dimensão moral e religiosa do conto é expressa no prefácio, que afirma que a história de Crusoé está sendo publicado para instruir a outros na sabedoria de Deus, e uma parte vital desta sabedoria é a importância de se arrepender dos pecados.

A história contada no livro também faz muitas considerações sobre a importância do auto- conhecimento para o ser humano.

Na simbologia da história, podemos ressaltar a pegada que Crusoé descobre na areia e a cruz por ele feita como elementos essenciais. A chocante descoberta de Crusoé de uma única pegada na areia, no Capítulo XVIII é um dos mais famosos momentos da novela, e simboliza sentimentos conflitantes do personagem sobre a companhia humana.

“Deus meus! Apenas dei com umas pegadas na areia, tremo e me horrorizo, à ideia de ser perseguido pelo homem, pelo ser que anelava, para repartir a pesada solidão”.

“O tempo foi coisa que me preocupou, naquele ermo. Para não me perder em confusões, levantei perto da praia uma alta Cruz, e nos braços inscrevi: [Aqui aportei a 30 de setembro de 1659]. E no poste mareava cada dia um risco, a faca, e passando sete dias, fazia um risco maior, Todos os primeiros dias do mês, um outro maior ainda, assim obtendo o meu calendário, com as semanas, os meses e os anos”.

O grande tamanho e as letras maiúsculas nos mostram o quão importante esta cruz é para Crusoé como um dispositivo de cronometragem e, assim, também como uma forma de relacionar-se com o mundo social maior, onde as datas e calendários ainda são importantes.

Robinson Crusoé e Sexta Feira – caracterização e motivações

Robinson Crusoé – Mesmo não sendo nenhum herói chamativo ou grande aventureiro épico, Robinson Crusoé exibe traços de caráter que ganharam a aprovação de gerações de leitores. Sua perseverança em passar meses fazendo uma canoa, ou na prática da fabricação de cerâmica até dominar a técnica, é louvável. Além disso, sua desenvoltura na construção de uma casa, laticínios, parreira, a partir de praticamente nada, é claramente notável. Os instintos de negócios de Crusoé são tão consideráveis quanto seus instintos de sobrevivência: ele consegue fazer uma fortuna no Brasil, apesar de uma ausência de vinte e oito anos e até mesmo deixa sua ilha com uma bela coleção de ouro. Além disso, Crusoé nunca está interessado em retratar a si mesmo como um herói na sua própria narração. Ele não se orgulha de sua coragem em sufocar o motim, está sempre pronto a admitir sentimentos de medo ou pânico, como quando ele encontra a pegada na praia. Crusoé prefere descrever-se como um homem sensato comum, nunca como um herói excepcional.

Mas as qualidades admiráveis de Crusoé devem ser pesadas contra as falhas em seu caráter. Crusoé parece incapaz de sentimentos profundos. Embora seja generoso com as pessoas, como quando dá presentes para suas irmãs e o capitão, Crusoé revela muito pouco afeto sincero em suas relações com eles.

Sua insistência nas datas dos eventos faz algum sentido, mas em última análise, acaba parecendo obsessivo e irrelevante quando ele nos diz a data em que fabricou os instrumentos, mas esquece de nos dizer a data de um evento muito importante, como o encontro de Sexta-feira. Crusoé ensina Sexta-feira a chamá-lo de “mestre”, mesmo antes de ensinar-lhe as palavras “sim” ou “não”, o que parece detestável mesmo sob os padrões racistas da época. No geral, as virtudes de Crusoé tendem a ser privadas: a sua indústria, desenvoltura e coragem solitária o tornam um indivíduo exemplar. Mas seus vícios são sociais, e sua vontade de subjugar os outros é altamente questionável. Ao trazer os dois lados juntos em um personagem complexo, Defoe nos dá uma visão fascinante sobre os sucessos, falhas e contradições do homem moderno.

robinson cursoe e sexta feira

Sexta-feira – Provavelmente, o primeiro personagem não-branco do qual foi feito um retrato realista, individualizado, e humano no romance Inglês, Sexta-feira tem uma enorme importância literária e cultural. Se Crusoé representa a primeira mente colonial na ficção, em seguida, sexta-feira representa não apenas um membro da tribo Caribe, mas todos os nativos da América, Ásia e África, que viriam a ser oprimidos na era do imperialismo europeu. No momento em que Crusoé ensina Sexta-feira a chamá-lo de “mestre”, Sexta-feira torna-se um símbolo político duradouro da injustiça racial em um mundo moderno e da crítica à expansão imperialista. Além de sua importância para a nossa cultura, Sexta-feira é uma figura-chave no contexto do romance. Em muitos aspectos, ele é o personagem mais vibrante em Robinson Crusoé, muito mais carismático e colorido do que seu “mestre”. Na verdade, Defoe por vezes ressalta o contraste entre as personalidades de Crusoé e de Sexta-feira, como quando Sexta-feira, alegre por seu reencontro com o pai, exibe muito mais emoção em direção a sua família do que Crusoé. Enquanto Crusoé nunca menciona sentir falta de sua família ou sonhos sobre a felicidade de vê-los novamente, Sexta-feira salta e canta de alegria quando encontra seu pai. A expressão de lealdade por Sexta-feira em pedir a Crusoé para matá-lo ao invés de deixá-lo é mais sincera do que qualquer coisa que Crusoé diga ou faça. As perguntas sinceras de Sexta-feira para Crusoé sobre o Diabo, que Crusoé responde apenas de forma indireta e hesitante, nos fazem pensar se o conhecimento de Crusoé do cristianismo é superficial quando esboçado em contraste com a plena compreensão do deus Benamuckee de Sexta-feira.

Apesar da subjugação de Sexta-feira, no entanto, Crusoé o considera muito mais do que um mero servo. Crusoé não parece valorizar a intimidade com os seres humanos, mas ele diz que ama Sexta-feira, o que é uma revelação notável. É a única vez que Crusoé faz uma admissão dessas na novela, já que ele nunca expressa amor por seus pais, irmãos, irmãs, ou até mesmo sua esposa. O simples fato de um inglês confessar mais amor por um ex canibal analfabeto do que para sua própria família sugere o apelo da personalidade de Sexta-feira.

imagem do filme de robinson crusoe

Dicas para professores de como trabalhar Robinson Crusoé em sala de aula

  1. O livro Robinson Crusoé pode ser trabalhado, em especial, no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, nas disciplinas: História, Língua Portuguesa, Literatura e Filosofia, além ser um excelente subsídio para projetos interdisciplinares.
  2. É uma leitura curta em linguagem muito acessível, por isso não haverá dificuldades para os alunos lerem o livro inteiro.
  3. Antes de sugerir sua leitura, pode-se pedir aos alunos que façam uma pesquisa sobre seu autor e o contexto histórico no qual o livro se insere.
  4. É importante ressaltar o marco que o livro representa na história da Literatura e como as mudanças que ele trouxe para o gênero se relacionam às transformações econômico-sociais do período no qual foi escrito.
  5. Pode-se utilizar os trechos nos quais o Brasil é mencionado para abordar o sistema colonial e seus múltiplos desdobramentos.
  6. A obra é um importante exemplo de como a Literatura pode ser o retrato das mentalidades e ideologia de uma época, no caso de Robinson Crusoé, pode-se analisar as representações do colonialismo presentes na obra.
  7. Explorando a relação entre os personagens Robinson Crusoé e Sexta-feira é possível abordar o tema do racismo e suas origens históricas.
  8. O livro possui adaptações para o cinema e televisão que podem complementar a leitura e trazer bons momentos para sala de aula.

O que de melhor encontramos no youtube sobre Robinson Crusoé

Literatura Fundamental 45 – Robinson Crusoé – Sandra Vasconcellos – uma entrevista realmente maravilhosa que apresenta o autor, a obra de dezenas de curiosidades em um diálogo de alto padrão!

Trailer do filme Robinson Crusoé (1997) legendado.

Aventuras de Robinson Crusoé, um Marinheiro de York – Animação Completa e Legendada

As aventuras de Robinson Crusoé (1978)  – outra animação, com muita qualidade – https://youtu.be/5lBIL–EhZo?list=PLFCE3127BA3F553CC – obs: não coloquei o link aqui pois o responsável pelo upload pediu para que ele fosse visto apenas no youtube

Resenha da Mel Ferraz no seu canal Literatura SE

Jogo Robinson Crusoe: Castaways – Aprendendo e jogando, muito legal!

Melhores produtos do mercado sobre Robinson Crusoé

Aqui vou mostrar as três melhores aquisições possíveis na web quando o tema é Robinson Crusoé. Tentei levar em conta os produtos mais diferenciados e essenciais, mas é claro que existem vários outros materiais, em especial se você for adepto de um bom sebo.

Myths of Modern Individualism: Faust, Don Quixote, Don Juan, Robinson Crusoe – Ian Watt

ian watt - Myths of Modern Individualism Faust, Don Quixote, Don Juan, Robinson Crusoe

Obra prima do Ian Watt – Eu tive acesso a esse livro na universidade, enquanto cursava Letras na UFRN. Ele abriu minha mente para como o romance inglês evoluiu e como a construção do Defoe foi fantástica. Acredito que seja uma leitura oportuna para todos que querem estudar o tema e abordar mais concretamente individualismo, autoestima, colonialismo e tradição inglesa em suas salas de aula. Segue o livro para quem deseja comprar o livro, mas lembro que ele ainda não tem versão traduzida para o português: http://goo.gl/zUqIh5

História em quadrinhos do Robinson Crusoé

História em quadrinhos do Robinson Crusoé Christophe Gaultier

Sem dúvidas a melhor história em quadrinhos sobre Robinson Crusoé disponivel no mercado. Tenho essa maravilha do Christophe Gaultier na estante e seguidamente retorno as leituras. Se você puder, doe para a sua escola e faça ciclo de leituras com seus alunos, eles irão apreciar não apenas as histórias, mas os belos desenhos, que comunicam e passam a simbologia e os temas de uma maneira mais digerível. Segue o link se deseja comprar o material: http://goo.gl/NmvAoO

Robinson Crusoé – O romance completo traduzido

Robinson Crusoé - O romance completo traduzidoSem dúvidas a melhor aquisição possível. Das edições no mercado, a penguin conta com a melhor tradução na minha opinião. Além de tudo ela é leve e tem um bom tamanho de letras. Se quiser comprar: http://goo.gl/sQfqBm

Nossa discussão sobre Robinson Crusoé não precisa acabar aqui. Comente!

Então esse foi o meu texto de apresentação sobre o Robinson. Espero de verdade que você tenha gostado e que ele te ajude a digerir as informações do livro e levante sua atenção para detalhes antes despercebidos. Como professores e pais atentos, precisamos focar em pontos chaves que vão elevar a discussão de nossos filhos e estudantes.

Por favor comentem e assinem o blog. Muita paz, luz e amor para vocês! o/

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Comentário

  1. Olá Professor,
    Gostei das recomendações mas tenho grande dificuldade em focar na leitura de obra e estudo literário. Poderia por favor, dar mais detalhes de como aproveitar esse tempo de forma mais enriquecedora?
    Tentarei ler e analisar algumas críticas literárias para ter mais detalhes afundo sobre o assunto e conhecimento sobre o Autor!
    Obrigada pela orientação.

    Reply

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