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Crítica | Hell Or High Water e a face pobre dos Estados Unidos

Poucos filmes em memória recente conseguiram aliar tão bem uma mensagem politica forte a uma historia tão entretenga. Hell Or High Water faz aquilo que muitos grandes filmes fazem, não só é um fantástico entretenimento como é realmente importante e socialmente relevante.

Sinopse: No coração do Texas, Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) dois irmãos que, pressionados pela proximidade da hipoteca da fazenda da família, resolvem assaltar bancos para obter a quantia necessária ao pagamento. Com um detalhe: eles apenas roubam agências do próprio banco que está cobrando a hipoteca. Só que, no caminho, eles precisam lidar com um delegado veterano (Jeff Bridges), que está prestes a se aposentar e tenta alcançar uma última gloria antes do fim da sua carreira.

O filme começa com a imagem de uma parede na qual se pode ler “três turnos no Iraque e nenhuma ajuda financeira para pessoas como nós”. David Mackenzie, o talentoso diretor escocês por detrás do filme, espalha pelo filme várias destas mensagens, este não se inibe de mostrar a pobreza e miséria que se vive no Oeste americano.

O roteiro, pelo excelente Taylor Sheridan é, de entre todas as qualidades do filme, talvez a melhor. O filme esta cheio de surpresas e reviravoltas, é incrivelmente denso sobre os problemas que assombram aquela região, mas talvez nenhum aspeto seja mais encantador do que a forma como o filme soa, nunca parece que estamos a ouvir um roteirista a falar, mas sim pessoas (texanos mais concretamente), o dialogo é suficientemente estilizado para ficar no ouvido, sem nunca ser “showoffy”.

É feito claro desde o início quem é o vilão do filme, os bancos. Quando o xerife Marcus tenta obter informação das pessoas a cerca de quem roubou o banco estas não estão interessadas em colaborar, como diz uma das testemunhas “o banco esta a roubar-me a 30 anos”, este é só um dos muitos exemplos ao longo do filme em que se aponta o dedo aos bancos, que vieram para aquelas terras sugar o pouco que os seus habitantes tinham, e aproveitar-se da ingenuidade , falta de educação e conhecimento  das pessoas.

O que salva tudo isso do sentimentalismo é que os dois protagonistas, ou pelo menos Tanner, não são exatamente Robin Hoods. Tanner rouba porque ama a adrenalina que o ato de infringir a lei lhe proporciona. Ele tem um radar embutido para atrair o perigo. Em contraste, Toby é impulsionada unicamente pelo desejo de tirar seus filhos de uma vida de pobreza. Ele é bondoso com todos, exceto os banqueiros. Em uma das melhores cenas do filme, uma garçonete de um pequeno restaurante local, que está atrasada em sua hipoteca e tem dois filhos para cuidar, conversa suavemente com ele. Este dá-lhe uma gorjeta de US $ 200, um sinal de compaixão.

Numa das melhores e mais poderosas cenas do ano passado vemos Toby a falar com um dos seus filhos, que já não via há muito tempo, o homem diz para o filho “vais ouvir muitas coisas sobre mim e o teu tio, coisas sobre o que andamos a fazer” ao que o jovem interrompe “não te preocupes eu não vou acreditar em nada”, Toby responde “acredita, nós fizemos essas coisas”. Este ama os seus filhos, a sua maneira, e esta disposto a fazer tudo ao seu alcance para que os seus filhos sejam melhores pessoas que ele, e que não precisem de viver uma vida de criminalidade.

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Hell Or High Water deixa-nos a todo o momento a espera de que não seja disparado nenhum tiro, a abominar a violência, pois nós sabemos que depois do primeiro tiro ser disparado não há volta a dar.

As atuações são todas muito boas, com especial destaque para o trabalho de Jeff Bridges e de Ben Foster. Bridges um ator de excelência da vida ao xerife Marcus de forma brilhante, este é um homem que se sente aterrorizado com a ideia da reforma, e que sente a deteriorar com a idade. Por outro lado Ben Foster (que vergonhosamente não foi nomeado a um Oscar pelo seu trabalho neste filme) é uma bomba, os seus olhos revelam a raiva e a frustração de quem nasceu sem escolhas, destinado a pobreza, o ator interpreta a natureza violenta do personagem como se esta fosse não a causa de todo o mal que se passa, mas sim a consequência. A cena em que Tanner e o seu irmão falam pela primeira vez da morta da mãe é dolorosamente comovente.

Hell Or High Water á nada mais nada menos que uma obra-prima, e um dos melhores filmes de 2016.

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