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“O formidável” e a metalinguagem de Hazanavicius

Diretor do aclamado filme, “O Artista“, que foi indicado a 10 diferentes categorias do Oscar e levou 5 para a casa, Michel Hazanavicius apresenta ao mundo o seu mais novo trabalho, O formidável, obra que se propõe a contar uma parte da história de vida do aclamado diretor e fundador do movimento de cinema Novelle Vague, Jean-Luc Godard, e que tem o dia 26/10 (vinte e seis de outubro) como data para o seu lançamento nos cinemas brasileiros.

Permeado com um tom característico de comédia, a trama se passa em meados dos anos 60, tendo início no período de lançamento de A Chinesa (1967), e terminando nas gravações de Vento do Leste (1970), ambos filmes de Godard, interpretado na obra pelo fantástico Louis Garrel. Este intervalo de tempo não foi escolhido a esmo, sobretudo porque a obra tem como base o livro “Un an après“, da Anne Wiazemsky, no qual a mesma se propõe a falar sobre o período vivido ao lado de Jean-Luc, com o qual foi casada por cerca de dez anos. Além disso, é nessa mesma época que acontece o Maio de 68, período de insurgência da indignação popular na França, onde se observou o crescimento de ideias progressistas e ligadas a uma percepção comunista, advinda de um instante de fragilidade do governo Gaullista que estava sendo confrontado abruptamente no país, e movimento no qual Godard se mostrou ativamente envolvido.

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De atmosfera risonha, o filme transita entre uma realidade de instabilidade política social vivenciada na França e o desenrolar da relação do diretor com sua amada, brincando constantemente com sua perspectiva de militante, entregue as causas que acredita e os seus ideais, ao mesmo tempo em que tem que lidar com uma carreira de sucesso e com os trâmites da vida.

Ao optar por tratar de uma figura tão aclamada cinematograficamente, Michel Hazanavicius correu o risco de não só soar demasiadamente pretensioso, mas também de cair no olhar crítico ferrenho de todos aqueles que sempre idealizaram a figura do diretor, e que por ventura implicariam com a sua escolha.

A obra não se caracteriza como um deboche escrachado sobre a vida do artista nem mesmo o vampiriza, como foi dito em algumas críticas, mas termina por se resumir demais ao contar com eventos tão pontuais ao longo da trama. O gênio do cinema acaba por ganhar tons mais humanos, e isso não é o ponto fraco da narrativa, sobretudo porque paixão é na verdade, o sumo básico mantenedor da existência de Godard, que por se entregar em demasia a seus ideais e as suas considerações políticas, termina por experimentar um constante metamorfosear.

Onde a direção de fato peca, é na tentativa de evidenciar insistentemente a percepção dicotômica de mundo que abarcava a Jean-Luc, trazendo a tona sua personalidade marcante e intransigente que acabava por dar origem a inúmeros momentos de conflito ao longo do trabalho. Ao ser tão incisivo com as repetições que fomentavam a psiquê do personagem, Hazanavicius acabou por aproximar a compreensão do mesmo, excessivamente, a uma noção mais caricatural, o que terminou por abafar e diminuir os grandes feitos do diretor, e a colocar-lo num eterno estado de crise, uma crise Godardiana.

Com uma fotografia puxada para tons fortes, em alguns momentos era possível sentir que as cores iam explodir, mas o diretor conseguiu obter êxito nesse ponto, não somente por ter condensado e desenvolvido sua paleta de cores de um jeito bem ponderado e que valorizava o enredo, como também por utilizar um recurso da metalinguagem cinematográfica, ao brincar com as cenas e fazer takes específicos que faziam referência a  filmes aclamados do Godard, sementando uma linguagem criativa que brincava com o lúdico ao mesmo tempo em que homenageava a própria personagem.

Ainda que não seja o melhor dos trabalhos de Michel Hazanavicius, “O formidável” é um filme delicioso de se assistir, seja pela fluidez do roteiro, ou pelas impecáveis interpretações de Louis Garrel e Stacy Martin, que não deixaram a desejar no quesito atuação.
Mesmo não sendo abafada pela linearidade cotidiana representada, ou pela delimitação exacerbada que foi conferida a personagem, a obra teria sido mais eficiente se houvesse optado por uma abordagem mais realística e menos romantizada, contudo, haja vista as limitações e os erros aqui apontados, “O formidável” ainda é uma excelente forma de perceber e trabalhar a linguagem cinematográfica,  e com certeza merece a atenção de todos.

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