Convidei a professora e pesquisadora Vera Menezes – UFMG para falar um pouco sobre ensino de inglês na educação básica e vários outros assuntos. Vamos lá?

Vera Menezes – Perfil

Vera Menezes é pesquisadora e colaboradora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do CNPq. Graduada em Português e Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, e em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. É mestre em Inglês pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Linguística e Filologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado na PUCMinas.

Hoje Vera Menezes é docente aposentada, colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da UFMG e pesquisadora nível 1C do CNPq.  Suas áreas de trabalho em Letras são aquisição de língua inglesa, pesquisa narrativa, ensino de línguas mediado por computador, linguagem e tecnologia, e retórica.

Vera Menezes

Algumas causas da professora Vera Menezes:

A Vera Menezes levanta algumas bandeiras em sua vida. Como os maus tratos aos animais e a defesa da educação brasileira, confira abaixo:

vera causas

Entrevista com Vera Menezes

Vera Menezes: Em primeiro lugar agradeço o convite e registro minha alegria em poder conversar com os leitores deste blog.

Para começarmos, por favor, fale um pouco sobre você e como entrou na educação, o que esperava e o que encontrou.

Vera Menezes: Por incrível que pareça, eu entrei na educação em função do machismo do meu pai que me impediu de fazer o curso científico para que eu pudesse me preparar para o vestibular de medicina. Ele queria que eu estudasse em escola pública onde não houvesse meninos e só havia uma opção, o Instituto de Educação. Naquela época os currículos eram diferentes e não se estudava química e física no curso normal, o curso de formação de professora primária que eu nunca quis ser, pois nunca tive muito jeito com crianças pequenas. Depois, só me restou optar por Letras devido ao conhecimento que eu já tinha da língua inglesa. Adorei o curso de Letras e mergulhei no campo. Neguei por um tempo essa vocação e até fiz uma curso de direito na UFMG, mas a paixão pelos estudos linguísticos, a burocracia no exercício do direito, o ritual da idade média e a empáfia de juízes e colegas me impediram de advogar.

Na sua visão, qual o principal objetivo do ensino de inglês enquanto segunda língua nas escola regular?

Vera Menezes: Inserir os alunos em práticas sociais da linguagem, ou seja, focar no uso da língua e só trazer a gramática para apoiar o uso.

Existe uma distinção entre ensinar cultura e linguagem no ensino de segunda língua?

Vera Menezes: Há vários conceitos de cultura, mas acho que a cultura (diferenças discursivas, estereótipos, informações culturais sobre os países que falam aquela língua, questões identitárias) pode e deve ser ensinada junto com a língua por meio da escolha de textos adequados e de discussões que levem ao uso da língua e à consciência crítica sobre a língua que se está ensinando/aprendendo.

Ao seu ver, qual a responsabilidade do professor de inglês dentro da sala de aula da educação básica?

Vera Menezes: A primeira responsabilidade do professor é aprender continuamente a língua que ensina e a segunda é criar oportunidades de aprendizagem para seus alunos na sala de aula e fora dela, levando em conta as necessidades dos aprendizes e suas diferenças individuais.

Nas cidades do Rio Grande do Norte em que dei aula convivi em um “lugar comum” do fracasso no ensino de segunda língua na escola. O aluno saí dizendo que só viu o TO BE, o professor diz que não consegue ensinar ou que a turma não acompanha, e nesse paradigma as escolas persistem em tratar o inglês como uma disciplina de “baixo clero”. Para Vera Menezes, esse cenário está de acordo com a realidade? Quais os principais desafios que do ensino de inglês?

Vera Menezes: “Só vi o TO BE” é na verdade uma metonímia para se referir ao ensino com foco exclusivo na gramática. Como grande parte dos professores é mal formada e se licenciou em faculdades que não se preocuparam em tornar seus alunos proficientes, a única saída que resta a eles é ensinar sobre a língua. É mesmo difícil ensinar aquilo que não dominamos. Desde a abertura do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) para o ensino de inglês ficou claro que a orientação agora é focar no uso da língua. Isso é reforçado no BNCC. Por outro lado temos também os professores que não acreditam em seus alunos e não lhes oferecem desafios. Tenho recebido bons depoimentos de professores que aceitaram o desafio de mudar sua cultura de ensino e seus alunos têm reagido positivamente.

Existem soluções para estes desafios? Qual o caminho das pedras em escolas com grande número de vulnerabilidades?

Vera Menezes: A solução é de longo prazo. O MEC deveria descredenciar as faculdades caça-níqueis que não se preocupam nem em contratar professores proficientes no idioma e muito menos a desenvolver a proficiência de seus alunos. A formação pedagógica (que também é deficiente) é importante, mas não resolve sem a competência linguística. Uma segunda medida seria o investimento em educação continuada para apoiar esses professores que foram jogados no mercado de trabalho sem a formação necessária. A outra saída é a incentivar a autonomia do aprendiz a usar estratégias de aprendizagem para suprir o que a escola não lhe oferece.

Você trabalha a um longo tempo com Narrativas de aprendizagem, poderia compartilhar conosco alguns exemplos em que estes desafios são vencidos?

Vera Menezes: As narrativas de aprendizagem, em sua maioria, deixam muito claro que a aprendizagem se dá com o contato e uso da língua fora da sala de aula. São poucos os relatos que reconhecem o mérito da sala de aula, mas é importante não demonizar a sala de aula, pois, por melhor que o professor seja, aquele espaço e tempo não são mesmo suficientes. O aprendiz precisa ouvir música, assistir filmes, interagir usando a língua inglesa, ler muito, etc. Convido os leitores a conhecer as narrativas em http://www.veramenezes.com/amfale/narrativas.html

Em seu livro Ensino de Língua Inglesa no Ensino Médio: teoria e prática, da coleção Somos Mestres de 2012, você faz um passeio breve quanto as metodologias de ensino de língua inglesa e estratégias de aprendizagem, focando depois nos diferentes tipos de ensino: ensino de gramática, vocabulário, leitura, pronúncia, produção oral; propondo inclusive atividades. Existe ao seu ver responsabilidade maior em ensinar um ou outro tipo?

Vera Menezes: Eu defendo que temos que ensinar a língua em uso e, dessa forma, o ensino de um ou outro aspecto deve ser acionado no momento em que se faz necessário. Se a tarefa é oral, por exemplo, podem ser necessários aspectos gramaticais, de pronúncia e até de escrita e leitura. Em muitas produções orais é necessário antes ler para conhecer o assunto e escrever um script antes da produção final.

Quanto a heterogeneidade dos aprendizes de uma segunda língua na escola regular, isso é necessariamente algo ruim para o ensino do inglês? Como deveríamos tratar?

Vera Menezes: Esse é um desafio para a escola e, especialmente, para o professor. A escola deveria oferecer apoio pedagógico para esses alunos em outro turno. Atividades de aceleração de aprendizagem costumam ser eficientes. O professor precisa também auxiliar esse aprendiz, buscando apoio entre os colegas e os orientando a desenvolver, de forma mais autônoma, suas competências.

A Autonomia de aprendizagem tem a ver com isso? Como podemos utilizar ela em nosso favor?

Vera Menezes: Sim, a autonomia é a chave para a aprendizagem de uma língua adicional. Sabemos que o contato com a língua é fundamental e assim, quanto mais experiências com a língua tivermos, mais aprendemos. O professor pode orientar o aluno em relação às estratégias de aprendizagem para que ele invista na aquisição da língua que aprende.

No seu livro Aquisição de segunda língua, publicado pela editora Parábola em 2017, você fez um rico passeio por diversas teorias, modelos e hipóteses de aquisição. Existe uma mais adequada para o ensino na escola regular e pública? Como o professor deve filtrar e utiliza-las?

Vera Menezes: O que defendo no livro é que cada teoria apresenta um aspecto relevante da aquisição e que precisamos ter uma visão complexa do fenômeno, dando atenção a todos os aspectos.

Um ponto forte da coleção Alive! é a cultura e o uso do idioma no cotidiano.

Vera Menezes: A coleção chama-se “ALIVE” porque quisemos enfatizar que queremos trabalhar com a língua viva e ela só é viva quando está sendo usada em práticas sociais. Por isso todas as atividades envolvem temas culturalmente relevantes e que possibilitam ações e intervenções sociais por meio da língua inglesa.

Desenvolvida por você, Junia Braga e outros autores, no referido ao ensino médio a coleção Alive! tem grande concentração de trabalhos digitais, como portfólios, vídeos, podcasts, blogging entre outras. O que sem dúvidas é um grande aparato para produção de conteúdos autênticos por parte dos alunos. No entanto, as escolas públicas e privadas ainda possuem limitações de recursos digitais. Qual seria o caminho do professor para vencer isso? Pode sugerir algumas estratégias?

Vera Menezes: No ensino médio, a coleção chama-se Alive High. High, referência a High School que corresponde ao nosso ensino médio. Temos consciência dessas limitações, mas não podemos ignorar que a maioria dos brasileiros hoje possui um smartphone. Segundo previsão da Fundação Getúlio Vargas em 2018, teríamos um celular por habitante. É claro que nem todos terão, pois alguns têm mais de um. No entanto, Se folhearem a coleção, verão que oferecemos alternativas. No caso do portfólio, por exemplo, a instrução diz:” You can collect your drafts and finished works on a computer, in a folder, or in a box.”, ou seja o aluno pode usar uma pasta ou uma caixa para colecionar suas tarefas. Mesmo quando não explicitamos, o professor pode criar alternativas. É o caso do mural virtual que pode ser substituído pelo mural físico; vídeos podem ser transformados em dramatizações; podcasts em apresentações orais como os jornais falados; e blogs em scrapbooks.

Hoje, grande parte dos alunos é exposta a tecnologia, e visar essas atividades é sem dúvidas participar do cotidiano do aluno e colaborar para o letramento digital deste aluno. Tarefa importante uma vez que mesmo exposto a tecnologia o aluno não necessariamente usa seus recursos, se limitando muitas vezes ao superficial. Você poderia sugerir ferramentas digitais que auxiliem o professor no ensino de idiomas em sala de aula?

Vera Menezes: Nosso grupo de pesquisa está fazendo uma curadoria de ferramentas e o primeiro ebook deve sair em breve. Já temos quase 200 ferramentas no catálogo e quase 100 resenhadas. Para cada uma, incluímos sugestões de uso no ensino de línguas. Cito apenas as 18 voltadas para a oralidade e que vão entrar no primeiro e-book. Este ebook será distribuído, gratuitamente, pela editora Parábola, São elas: Audacity, Elevate Brain, English Central, Flipboard,  JellyCam, JQBX,  Lyrics Training, MailVU, Memrise, Padlet, Playposit, Podomatic, PollEverywhere, PowToon, Skype, Speakingpal, Stupeflix, UTellStory.

No uso da tecnologia está a prática cultural do cotidiano. E quanto a cultura canônica como a literatura, como fazê-la parte do dia a dia do aluno?

Vera Menezes: Acredito que o uso de excertos interessantes pode ser um elemento motivador. Temos também que aproveitar as oportunidades. Neste momento, por exemplo, a rede Globo vai exibir uma novela baseada em Pride and Prejudice que foi incluído no livro 2. No livro 1, temos literatura Africana que fala sobre a violência contra mulher tão comum, infelizmente, no Brasil. O professor pode partir de um caso que estiver sendo destacado na imprensa e, com isso, motivar a leitura para comparar a vida real com a ficcional. Uma atividade como essa pode levar os alunos a refletir sobre a realidade que os circunda, seja como vitima ou testemunha de violência doméstica. É um bom momento para desenvolver a cidadania e a consciência de que a violência tem que ser combatida e denunciada.

Você acredita que há um afastamento do ensino de literatura em prol do ensino de gramática na escola regular? Como você enxerga isso?

Vera Menezes: A literatura sempre foi pouco prestigiada no ensino de línguas, assim como o uso da língua. Nossa coleção tenta contribuir para a valorização da literatura, pois acreditamos que ela é uma das poucas experiências estéticas acessíveis à maioria dos alunos.

Por fim, gostaria que você respondesse umas rapidinhas:

Vera Menezes: Vamos lá?

Qual o seu livro predileto?

Vera Menezes: Incidente em Antares de Érico Veríssimo, a última frase me marcou para sempre, mas não vou dar spoiler.

E seu filme?

Vera Menezes: Retratos da Vida, para não perder de vista os horrores da guerra.

Qual o livro que todo o professor de língua estrangeira deveria ler?

Vera Menezes: Um livro interessante é o Aprendendo com os erros de Francisco Quaresma de Figueiredo, editado pela editora da UFG. Vai parecer vaidade, mas não é. Acho que meu livro Aquisição de segunda língua, publicado pela Parábola, pode ser uma grande ajuda para os professores, pois nele resenho as teorias de aprendizagem mais conhecidas e insiro trechos de narrativas de aprendizagem para ilustrar.

Vera Menezes: Quanto aos estrangeiros, acho bem prático o Learning to learn English, de Gail Ellis e Barbara Sinclair, da editora Cambridge. É um livro antigo, mas com ótimas ideias.

E o filme indicado aos professores?

Vera Menezes: Prá frente Brasil, para não se ter saudade da ditadura.

O que não pode faltar em sala de aula?

Vera Menezes: Interação, colaboração e atividades que dinamizem a aprendizagem.

O que os professores não podem perder?

Vera Menezes: O amor pelos alunos pobres e a disposição de empoderá-los.

O que as escolas devem buscar?

Vera Menezes: A formação para a cidadania

Bom, é isso. Muito obrigado pela participação e espero do fundo do coração que tenha gostado. Quero que saiba que é uma enorme honra ter tido você por aqui e, por favor, use este momento para se despedir e dizer o que tiver vontade.

Vera Menezes: Gostei muito de participar dessa entrevista e agradeço o convite novamente.

Livros da Vera Menezes

Dentre as suas muitas publicações na área da tecnologia e linguagem conheça algumas das obras abaixo:

Alive High. Inglês – Volume Único

Autores: Vera Menezes, Kátia Tavares, Junia Braga e Claudio Franco.

Alive High - Volume único

Ensino de Língua Inglesa no Ensino Médio. Teoria e Prática

Autores: Vera Menezes.

Livro para formação e/ou especialização de Professores de Inglês na Educação Básica, escolas públicas e privadas, com interesse em aprofundar seus conhecimentos para lecionar alunos do ensino médio.

Ensino de Língua Inglesa no Ensino Médio. Teoria e Prática

Ensino de Língua Inglesa no Ensino Médio : Teoria e Prática

Autores: Vera Menezes.

Ensino de Língua Inglesa no Ensino Médio : Teoria e Prática

Alive High 2 Ensino Medio

Autores: Vera Menezes; Junia Braga E Outros.

Alive High 2 Ensino Médio

FIM da Entrevista com Vera Menezes

Obrigada por ter acompanhado a entrevista até o final. Espero que tenha gostado!

Deixe sugestões e ideias para novos posts para o Demonstre!

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente ideia, a de convidar Vera Menezes para uma entrevista em seu blog. Ela é, realmente, uma estrela de primeira grandeza no ensino de inglês. Parabéns!

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