Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 6

Frankestein,,, Quem é que nunca ouviu falar deste icônico personagem? Pois é, pessoal. Hoje vou apresentar para vocês uma análise sobre a obra de Mary Shelley, a criadora de um dos maiores personagens do gênero terror.

Frankestein: as origens do personagem, a trajetória de sua autora e como você poderá trabalhar com o livro em sala de aula

Frankenstein (Frankenstein: or the Modern Prometheus), de Mary Shelley, foi publicado pela primeira vez em 1818. Mary Wollstonecraft Godwin nasceu em 30 de agosto de 1797, em Londres, num berço letrado. Sua mãe, Mary Wollstonecraft, foi autora de um famoso tratado sobre os direitos da mulher, e seu pai, William Godwin, era membro de um círculo de pensadores radicais na Inglaterra que contou com Thomas Paine e William Blake em suas fileiras.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 1Retrato de Mary Shelley, pintado por Richard Rothwell (1840-1841)

A história surgiu no verão de 1816, quando Mary, seu futuro marido, o poeta Percy Bysshe Shelley (na época um homem casado) e o poeta Lord Byron se encontravam nos alpes suíços e a chuva fora de época obrigava-os a permanecerem presos em seus alojamentos. Ler histórias de fantasmas era a opção de entretenimento, então, Lord Byron propôs que fizessem uma competição para ver quem escreveria a melhor história de terror. A jovem Mary levou o prêmio por ter escrito uma história assustadora o bastante não só para tomar o seu lugar ao lado dos velhos contos alemães que os três estavam lendo, mas também para se tornar um best-seller em seu tempo e um clássico gótico que ainda ressoa entre os leitores dois séculos mais tarde.

Mary e Percy Shelley se casaram em 1816 (semanas após a esposa de Percy, grávida, ter-se afogado em Londres). A união entre os dois não era apenas romântica, mas também literária. Foi Percy quem editou o manuscrito de Frankenstein e supõe-se ser de sua autoria o prefácio sob o nome de Mary. O sucesso literário era o único ponto brilhante em meio a uma série de tragédias na vida de Mary Shelley. De 1816 a 1819, três dos seus quatro filhos morreram na infância, e, em 1822, Percy morreu, deixando-a uma viúva e mãe solteira. Mary continuou dedicando-se a à sua escrita e publicou algumas obras inéditas de seu falecido marido. A autora morreu em Londres, em fevereiro de 1851.

A história de Frankenstein é contada através das cartas que Robert Walton, capitão de um navio cuja missão é achar uma passagem para o Polo Norte, envia a sua irmã em Londres. De início bem-sucedida, a missão é logo interrompida pelo gelo intransponível. Nesse momento Walton encontra a criatura de Victor Frankenstein viajando em um trenó puxado por cães. A seguir o mar se agita, liberando o navio, e em uma balsa de gelo avistam o moribundo doutor Victor Frankenstein. Victor conta sua história a Walton, que a reproduz nas cartas enviadas à irmã.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 2

Victor teve uma infância feliz em Genebra. Autodidata, desde muito cedo tinha enorme interesse pelas ciências naturais e estudava a obra de antigos mestres alquimistas. Aos 17 anos entrou para a Universidade de Ingolstadt, na Alemanha, para estudar ciências naturais, tendo sua mãe falecido nessa época. Em seus anos de universidade Victor se torna obcecado em descobrir o segredo da vida, até acreditar que o encontrou. Frankenstein então dedica-se a criar um ser, a partir de partes de corpos humanos de diferentes idades, sacrificando o contato com a família e a própria saúde, e após dois anos obtém sucesso. Porém, Victor fica perplexo com sua própria criação, e a abandona, fugindo. É encontrado por seu amigo Clerval, que viera a Ingolstadt estudar. Exausto, sucumbe à febre, sendo cuidado por Clerval durante os meses seguintes, até seu restabelecimento.

Victor recebe uma carta do pai informando que seu irmão mais novo, William, foi assassinado. No caminho para casa, Victor avista o monstro e se convence de que ele é o assassino de seu irmão. Chegando em Genebra, Victor descobre que Justine Moritz, moça que vivia com a família Frankenstein e por eles muito querida, foi acusada. Justine é julgada, condenada e executada, apesar de afirmar inocência. A culpa de Victor aumenta cada vez mais, pela certeza de que sua criatura foi responsável pela morte das duas inocentes pessoas queridas.

Victor resolver tirar um período de férias nas montanhas, na esperança de ter algum alívio para sua dor. Enquanto o jovem atravessa uma enorme geleira, o monstro se aproxima, confessa o assassinato de William e explica que o cometeu no intuito de ferir seu criador, que o abandonou. O monstro implora a Victor que crie uma companheira para ele. A princípio Victor se recusa, mas o monstro consegue convence-lo. Victor vai para uma das ilhas do arquipélago das Orkneys e cria um monstro do sexo feminino, mas se arrepende. Pensando nas possíveis consequências de seu trabalho, Victor destrói a criatura. O monstro se enfurece e jura vingança. Na mesma noite, Victor vai com um barco despejar os restos do segundo monstro na água. O vento o impede de voltar para a ilha. Na parte da manhã, ele encontra-se em terra, perto de uma cidade desconhecida. Após o desembarque, é preso e informado de que será julgado por um assassinato descoberto na noite anterior. Victor nega qualquer conhecimento do crime, mas quando lhe mostram o corpo, ele fica chocado ao ver seu amigo Henry Clerval, com as marcas dos dedos do monstro em seu pescoço. Victor cai doente, delirante e febril, e é mantido na prisão até sua recuperação, sendo absolvido do crime.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 3

De volta a Genebra, Victor se casa com sua noiva, Elizabeth. Temendo que o monstro venha ataca-lo, Victor pede que Elizabeth fique longe dele na noite de núpcias, mas ele houve o grito da esposa e vê que foi Elizabeth a quem o monstro matou. Depois do ocorrido, o pai de Victor morre de tristeza, literalmente. Victor determina que dedicará o resto da sua vida a encontrar o monstro e dele vingar-se, e começa sua busca, indo cada vez mais para o Norte, sempre no gelo. Depois de avistar a criatura, Victor quase a alcance, mas uma fenda gigantesca no gelo cria um abismo intransponível entre os dois. É neste ponto que Walton encontra Victor e a narrativa chega ao momento da quarta carta de Walton para a irmã. Victor já se encontrava muito doente quando foi encontrado e morreu pouco depois. Vários dias depois de seu óbito, Walton vai até a sala onde o corpo está e encontra o monstro, chorando sobre o cadáver. Ele fala de sua imensa solidão, sofrimento, ódio e remorso. O monstro afirma que, agora que seu criador morreu, ele também pode dar fim ao seu sofrimento, e parte para a morte no gelo setentrional.

Frankenstein fala principalmente dos perigos da busca desenfreada de certos conhecimentos. Victor quis ir além dos limites humanos e ter acesso ao segredo da vida, criando um monstro que assassina a todos a quem ele ama. Robert Walton tentava incansavelmente superar as explorações humanas anteriores para alcançar o Polo Norte, e acaba preso no gelo. Pode-se dizer que a história de Victor serviu com alerta para Walton sobre como a sede de conhecimento pode ser destrutiva.

A monstruosidade é outro tema central. O monstro é rejeitado pela sociedade pela sua aparência, porém sua monstruosidade também resulta da forma antinatural de sua criação, que envolve a animação secreta de uma mistura de partes de corpos e estranhos produtos químicos. Ele é fruto de um esforço científico obscuro, quase de uma obra sobrenatural. Numa outra perspectiva, é possível questionar se não seria Victor o verdadeiro monstro, com sua ambição, sigilo e egoísmo que o afastaram da sociedade humana.

Frankenstein é uma história de segredos. Victor concebe a ciência como um mistério a ser sondado; seus segredos, uma vez descobertos, devem ser zelosamente guardados. Toda a sua obsessão com a criação de vida está envolta em segredo, e sua obsessão por destruir o monstro permanece igualmente em segredo até Walton ouvir sua história.

O mundo natural sublime, abraçado pelo Romantismo (século XVIII até meados do século XIX) como fonte de experiência emocional desenfreada para o indivíduo, inicialmente, oferece aos ersonagens a possibilidade de renovação espiritual.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 4

Atolado em depressão e remorso depois das mortes de William e Justine, pelas quais se sente responsável, Victor vai para as montanhas para levantar seu ânimo. Da mesma forma, depois de um inverno infernal de frio e abandono, o monstro sente seu coração clarear quando a primavera chega. A influência da natureza sobre o humor é evidente em todo o romance, mas para Victor, o poder do mundo natural para consolá-lo diminui quando ele percebe que o monstro vai assombrá-lo, não importa aonde ele vá.

Frankenstein está repleto de textos: letras, notas, diários, inscrições e livros a preencher a novela, por vezes, sobrepostos uns aos outros (a própria história de Victor está contida nas cartas de Walton), outras vezes simplesmente aludidos ou citados. Esta profusão de textos é um aspecto importante da estrutura narrativa, já que os vários escritos servem como manifestações concretas de atitudes e emoções dos personagens.

Luz e fogo ocupam um lugar central na simbologia do livro. A luz simboliza o conhecimento, descoberta e iluminação. O mundo natural é um lugar de segredos sombrios, passagens ocultas e mecanismos desconhecidos; o objetivo do cientista é atingir a luz. O primo perigoso e mais poderoso da luz é o fogo. A primeira experiência do monstro com uma chama ainda fumegante revela a natureza dual do fogo: ele descobre animadamente que cria a luz na escuridão da noite, mas também que isso pode queimá-lo. A presença de fogo no texto também traz à mente o título completo do romance de Shelley, Frankenstein: ou O Moderno Prometeu. O deus grego Prometeu deu o conhecimento do fogo para a humanidade e, em seguida, foi severamente punido por isso. Victor, na tentativa de tornar-se um Prometeu moderno, é certamente punido, mas ao contrário do fogo, seu “dom” para a humanidade pelo conhecimento do segredo da vida continua a ser um segredo.

PRINCIPAIS PERSONAGENS

Victor Frankenstein

“Concluí que, para descobrir as causas da vida, temos de recorrer à morte. Eu precisaria entender porque o corpo humano envelhece, decai e finalmente se degrada com a morte. ”

Victor transforma-se ao longo do romance, passando de um jovem inocente, fascinado com as perspectivas da ciência a um homem desiludido, cheio de culpa e determinado a destruir os frutos do seu esforço científico arrogante. Seja como resultado de seu desejo de alcançar o poder divino da criação de uma nova vida ou pela sua evasão das arenas públicas em que a ciência é geralmente conduzida, Victor está condenado por uma falta de humanidade. Ele se isola do mundo e, por fim, entrega-se inteiramente a uma obsessão animalesca de vingar-se do monstro. No final do romance, depois de ter perseguido sua criação sempre para o norte, Victor relata sua história para Robert Walton e depois morre. Com seus múltiplos narradores e, por conseguinte, as várias perspectivas, a novela deixa o leitor com contrastantes possíveis interpretações de Victor: cientista louco clássico, transgredindo todos os limites sem preocupação ou corajoso aventureiro em terras científicas desconhecidas, não devendo ser considerado responsável pelas consequências de suas explorações.

O monstro

“ Deus, em sua piedade, fez o homem belo e sedutor, à sua imagem e semelhança. Mas você me fez à imagem e semelhança do demônio. O próprio Satã tinha outros demônios como companheiros de abominação. Mas você me condenou a ser abominável e só”.

O monstro é criação de Victor Frankenstein, montado a partir de partes de corpos de diferentes idades e produtos químicos estranhos, animado por uma faísca misteriosa. Ele entra na vida extremamente forte, mas com a mente de um recém-nascido. Abandonado e confuso, ele tenta integrar-se na sociedade, mas é rejeitado universalmente. Olhando no espelho, ele percebe que seu grotesco físico é um aspecto de seu que cega a sociedade ao seu inicialmente suave, tipo de natureza. Enquanto Victor sente ódio absoluto de sua criação, o monstro mostra que ele não é um ser puramente mal. Na história ele auxilia um grupo de camponeses pobres e salva uma garota de afogamento, mas por causa de sua aparência, é recompensado apenas com espancamentos e desgosto. Dividido entre vingança e compaixão, o monstro acaba solitário e atormentado pelo remorso. Mesmo a morte de seu criador oferece apenas um alívio agridoce: alegria, por Victor ter lhe causado tanto sofrimento, e tristeza, porque Victor é a única pessoa com quem ele teve qualquer tipo de relacionamento.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 5Cena de Frankenstein, 1931

Robert Walton- As cartas de Walton para sua irmã formam uma moldura em torno da narrativa principal, a história trágica de Victor Frankenstein. Walton é o capitão de um navio que fica preso no gelo. Enquanto espera o gelo a derreter, ele e sua equipe resgatam Victor, fraco e emagrecido pela sua longa perseguição em busca do monstro. Victor se recupera um pouco, diz Walton a história de sua vida, e depois morre. Walton lamenta a morte de um homem com quem ele sentiu uma forte amizade começando a se formar. Walton funciona como o canal através do qual o leitor ouve a história de Victor e seu monstro. No entanto, ele também desempenha um papel paralelo ao de Victor de muitas maneiras. Como Victor, Walton é um explorador, perseguindo o conhecimento.  A influência de Victor sobre ele é paradoxal: num momento ele exorta os homens quase amotinados de Walton para seguirem no caminho com coragem, independentemente do perigo; ao mesmo tempo, ele serve como um forte exemplo dos perigos da ambição científica desenfreada.

ALGUMAS IDEIAS PARA TRABALHAR O LIVRO EM SALA DE AULA

  • Frankenstein é um livro que pode ser trabalhado no 8° e 9° do Ensino Fundamental II e no Ensino Médio. Pode fazer parte das aulas de Ciências, Biologia, Português, Literatura, Geografia, Filosofia e História.
  • Também é interessante explorar o contexto geográfico no qual a história de desenrola.
  • A história do livro oferece uma boa oportunidade de se usar uma obra de literatura para trabalhar conteúdos na área de Ciências da Natureza, entre os quais: Origem da vida, características dos seres vivos e ética na ciência.
  • O título completo do livro também merece atenção: Frankenstein: ou Prometeu Moderno. Vale falar sobre o mito de Prometeu e o significado da descoberta do fogo para os seres humanos.
  • Além de ser um clássico e ter um tema muito atrativo para o público jovem, o fato do personagem Frankenstein (que na verdade era o sobrenome do criador mas acabou sendo o nome da criatura na cultura popular) já estar presente no imaginário coletivo faz com que os alunos tenham uma curiosidade natural em conhecer a história original, portanto não haverá maiores problemas em motivar os alunos para que leiam o livro.
  • A forma como a narrativa foi construída, valendo-se de diferentes gêneros textuais é um aspecto que merece destaque.
  • É interessante ressaltar a inovação que o livro representou na história da Literatura e trabalhar a biografia da autora. Pode-se sugerir aos alunos que pesquisem esses temas e exponham os resultados para a turma antes da leitura do livro.
  • Frankenstein possui versões para o cinema e televisão, que podem complementar a leitura do livro.

Frankenstein – Uma análise completa do livro que deu origem ao mito! 6

WEB

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.