A história secreta dos macetes de videogame

Quando um game fica muito difícil ou você se cansa de fazer a mesma coisa mil vezes, uma simples sequência de botões pode mudar tudo. Continua morrendo na mesma fase? Coloque o macete de vida infinita. Adora atirar como se não houvesse amanhã? Coloque o macete de munição infinita. Quer ver todos os personagens com cabeças gigantescas? Bem, há um macete pra isso também.

Macetes existem desde os primórdios dos games. Mas como surgiram? Como a sua existência se espalhou? Será que os designers de jogos colocaram os macetes nas memórias intencionalmente ou foi acidental? Há muita história por trás dos macetes e é hora de revelarmos a sua verdade incalculável.

Macetes foram criados pelos jogadores

Macetes começaram quando os próprios jogadores eram também programadores e acessavam os dados dos jogos e modificavam os valores dos códigos, sobrescrevendo sua memória e adicionando valores numéricos que alteravam o gameplay. Os jogadores tinham que passar pelo árduo processo de encontrar linhas individuais de código e mudá-las – e cruzavam os dedos e torciam pra que os novos valores fizessem algo. Um monte de gente desperdiçou muito tempo com tentativa e erro apenas pra conseguir poções infinitas

Macetes eram atalhos que permitiam que todos trapaceassem, até mesmo os desenvolvedores

Os macetes são uma forma de ganhar vantagem injusta, mas esse não era seu único propósito. Alguns macetes foram adicionados aos jogos como atalhos pros desenvolvedores navegarem mais facilmente durante os testes. Um macete era uma maneira rápida e fácil de quebrar o jogo pra facilitar o acesso a suas partes individuais. Um exemplo fornecido pelo desenvolvedor veterano Chris Sorrell foi um macete que poderia matar um chefe com um hit:

“Você não pode lutar contra o chefe apenas pra verificar se ele entrega corretamente a chave especial quando morre, então você adiciona um recurso pra matá-lo num hit. Passar apenas um pouco de tempo programando macetes poderosos significa economizar centenas de horas de produtividade pra si mesmo – e pra todos os outros que trabalham num projeto.”

Muitas vezes esses macetes foram deixados no jogo por acidente, pra serem descobertos por jogadores engenhosos só mais tarde. Um dos macetes mais famosos foi em um jogo chamado Manic Miner, lançado no ZX Spectrum em 1983. O designer Mathew Smith usou seu número de carteira de motorista, 6031769, como o macete que desbloqueava a opção selecionar a fase, permitindo que os jogadores saltassem pra qualquer estágio.

Macetes se tornaram parte dos jogos

Logo, os macetes foram parar nas revistas de videogames. Cada revista de jogos no mercado tinha uma seção dedicada a listar cada código conhecido dos jogos mais populares do mês. Houve até mesmo uma revista exclusivamente dedicada a macetes, a “Tips and Tricks” – Dicas e Truques. Com isso, veio o desenvolvimento de macetes inseridos em jogos pelos desenvolvedores como easter eggs pros jogadores descobrirem, lerem numa revista, ou ouvir de um amigo, que passou a ser uma camada nova na experiência dos jogos

O famoso Código Konami

Sem dúvidas, o Código Konami foi o macete mais famoso de todos os tempos. Cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, B, A no clássico Gradius da Konami garantia armas adicionais à nave do jogador. Mas o código não foi criado com o público mente: o designer Kazuhisa Hashimoto fez isso pra dar a si mesmo toda a ajuda possível porque, sem isso, ele não conseguia zerar seu próprio jogo. Apenas alguns anos depois, o mesmo código foi usado no desenvolvimento de outro hit da Konami, Contra, garantindo 30 vidas em vez de só 3, o que tornava o jogo notoriamente difícil um pouco menos impossível. O código tornou-se tão conhecido que a Konami passou a adicioná-lo em dezenas de seus títulos – e ele também apareceu em centenas de jogos de incontáveis estúdios ao longo dos anos.

Os macetes foram à justiça

A década de 90 foi uma época de ouro pros macetes – um momento em que os videogames se tornaram uma força dominante na indústria de entretenimento. Quando Mortal Kombat foi atacado por políticos e pais por suas representações gráficas de violência intensa, seus desenvolvedores foram forçados a remover os bits mais desagradáveis do jogo pro lançamento do Mega Drive. O Mortal Kombat do Mega Drive não tinha sangue e tripas… Até que um jogador testou o macete A, B, A, C, A, B, B, que restaurou sanguinolência do jogo – e gerou ainda mais processos contra os desenvolvedores.

E então os macetes ficaram estranhos

Conforme os macetes ficaram mais populares, eles passaram a alterar os jogos de maneiras mais divertidas e bobas do que úteis. Caso em questão: modo cabeção. Ninguém tem certeza de qual jogo foi o primeiro a incluir este truque ridículo, mas o crédito por popularizá-lo vai pra série NBA Jam. O modo cabeção literalmente deixava as cabeças dos personagens muito maiores do que o normal – e só isso. Não dava aos jogadores nenhuma vantagem estratégica, mas apareceria mais tarde em centenas de jogos, inclusive fazendo aparições em clássicos como Goldeneye pro Nintendo 64 e, mais tarde, na série Gears of War. Onde os códigos mais úteis davam aos jogadores vantagens injustas, outros, como alguns destaque no Grand Theft Auto III, realmente faziam o oposto. Os desenvolvedores da Rockstar adicionaram um código que fazia todos os cidadãos de Liberty City entrarem numa raiva cega contra o personagem principal, obrigando-os a atacar o jogador à primeira vista.

Game Genie e GameShark

A popularidade dos macetes atingiru seu pico quando as empresas começaram a construir hardwares pra permitir que os jogadores introduzissem mais facilmente suas fraudes – como o Game Genie e o GameShark. Ambos eram cartuchos que deveriam ser colocados entre o console e o cartucho do jogo e eles facilitavam o caos dos macetes. Um sinal enviado do cartucho seria interceptado por um Game Genie ou GameShark e, antes de transmitir a mensagem pro seu videogame, o dispositivo alterava o código do jogo pra benefício do jogador. Bons tempos pros macetes.

Os macetes forçaram a Nintendo a provocar uma evolução acidental na forma como trapaceamos

Não é nenhuma surpresa que a Nintendo tenha processado a empresa Codemasters – desenvolvedora do Game Genie -, mas não pela razão que você esperaria. A Nintendo afirmou que o dispositivo estava criando um derivativo ilegal de seus jogos originais. Quando a Nintendo perdeu o caso, a comunidade de jogos em geral interpretou como uma coisa muito importante: a modificação de jogos após a compra era lícita. Game Genies e GameSharks eram, em essência, os “mods” clássicos. E se isso era lícito, então também está autorizado fazer um mod pra Skyrim que deixa todas as mulheres com os seios expostos e que transforma todos os dragões em Thomas, o trem. A comunidade de modding de hoje deve muito à Codemasters.

A Internet matou as revistas

Com a ascensão do Internet, os macetes se tornaram digitais e muito de seu potencial financeiro desapareceu. Por que uma revista de videogames mensal precisaria publicar uma seção inteira dedicada a fraudes quando havia sites dedicados inteiramente aos macetes disponíveis 24 horas por dia?

Conquistas VS Macetes

Macetes não são tão proeminentes como costumavam ser, mas não foi a Internet que os matou. De acordo com o jornalista de videogames veterano Dan Amrich, a satisfação dos jogadores foi preenchida pelos sistemas de conquista do Xbox Live, PlayStation Network e Steam. Amrich argumentou que os desenvolvedores passaram a ser cobrados pra desenvolver conquistas, o que diminuiu ou eliminou o tempo dedicado aos macetes. Por que se gabar de seu conhecimento ou uso de macetes quando você pode se gabar sobre as coisas que você foi capaz de realizar sem macete?

O mundo dos mods

Macetes estão longe de serem extintos. Eles sempre existirão de uma forma ou de outra. Talvez não como uma série de combinação de botões, mas como algo completamente diferente. Afinal, se você usa mods em Skyrim pra tornar seu personagem invencível ou transformar seu personagem no Link da série The Legend of Zelda e balançar a espada de Finn da Hora da Aventura pra atacar inimigos que foram modificados pra gritarem palavrões quando feridos, você está definitivamente usando macetes.

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